O Lankavatara Sutra

Tradução da versão inglesa de Biona






Capitulo I A Discriminação
Capitulo II As Falsas Imaginações e o Conhecimento das Aparências
Capitulo III O Conhecimento Correcto e o Conhecimento das Relações
Capitulo IV O Conhecimento Perfeito e o Conhecimento da Realidade
Capitulo V O Sistema Mental
Capitulo VI A Inteligência Transcendental
Capitulo VII A Auto Realização
Capitulo VIII A Obtenção da Auto Realização
Capitulo IX O Fruto da Auto Realização
Capitulo X A Aprendizagem A Linha dos Arhats
Capitulo XI O Estado Bodhisattva e as suas etapas
Capitulo XII O Estado Thatagata que é Sabedoria Nobre
Capitulo XIII O Nirvana



Capítulo l

A Discriminação

Assim eu ouvi:
O Santificado apareceu uma vez no Castelo de Lanka que está no ápice do Monte Malaya no meio do grande Oceano.
Um grande número de Bodhisattvas Mahasattvas tinham-se milagrosamente reunido em assembleia, vindos de todas as terras Buda, e um grande número de Bhikkhus reuniram-se lá. Os Bodhisattvas Mahasattvas, com Mahamati na liderança deles, eram todos, mestres perfeitos nos vários Samádhis, no Autodomínio décuplo, nos dez Poderes, e nas seis Faculdades Psíquicas. Tendo sidos ungidos, pelas próprias mãos do Buda, todos eles compreendiam bem o significado do mundo objectivo; todos eles sabiam como aplicar os vários recursos, ensinamentos e medidas disciplinares, de acordo com as várias mentalidades e comportamentos dos seres; todos eles eram completamente versados nos cinco Dharmas, nos três Svabhavas, nos oito Vijnanas, e na dualidade do não Eu.
O Santificado, sabendo das agitações mentais, que ia nas mentes dos que se reuniam em assembleia, (como a superfície do oceano agitada em ondas pelos ventos que passam), o seu grande coração moveu-se através da compaixão, e sorrindo disse:

"Outrora os Tathagatas do passado que foram Arhats e completamente iluminados, vieram ao Castelo de Lanka no Monte Malaya e discursaram sobre a Verdade da Nobre Sabedoria, que está além do conhecimento racional dos filósofos, como também está além da compreensão de discípulos e mestres comuns; e que só é entendida dentro da consciência interna; por isso, eu também, discursarei sobre esta mesma Verdade. Tudo aquilo que é visto no mundo é destituído de esforço e acção, porque todas as coisas no mundo são como um sonho, ou como uma imagem milagrosamente projectada. Isto não é compreendido pelos filósofos e ignorantes, mas sim por aqueles que assim vêem as coisas e as vêem na sua verdadeira realidade. Os que vêem as coisas de forma diferente entram na discriminação, e como dependem dela, agarram-se ao dualismo. O mundo, visto através da discriminação, é como ver a própria imagem reflectida num espelho, ou a sombra da pessoa, ou da lua reflectida na água, ou como um eco ouvido num vale. As pessoas que se agarram às suas próprias sombras de discriminação, tornam-se dependentes desta e daquela coisa, e fracassando em abandonar o dualismo, elas vão sempre discriminando, e assim nunca atingem a tranquilidade. Por tranquilidade, entende-se Unidade, e a Unidade, faz nascer o Samádhi superior, que é alcançado entrando no reino da Nobre Sabedoria, que só é realizável dentro da consciência íntima de si mesmo.”

Então todos os Bodhisattvas Mahasattvas levantaram-se dos seus lugares e respeitosamente prestaram-lhe homenagem, e Mahamati o Bodhisattva Mahasattva mantido pelo poder dos Buddhas, puxando o hábito para o seu ombro, ajoelhou-se e juntando as mãos, elogiou-o nos versos seguintes:

“Como analisas o mundo com a tua perfeita inteligência e compaixão,
ele deve parecer-te como uma flor etérea, da qual não se pode dizer:
‘Isto é nascido, isto é destruído, por os termos, ser e não ser, não se lhe aplicarem.’
Como analisas o mundo com a tua perfeita inteligência e compaixão,
ele deve parecer-te como um sonho, do qual não se pode dizer:
‘Isto é permanente ou isto é destrutível, por o ser e não ser, não se lhe aplicarem.’
Como analisas todas as coisas com a tua perfeita inteligência e compaixão,
ele deve parecer-te como pontos de vista além do alcance da mente humana, por o ser e não ser, não se lhe aplicarem.
Com a tua perfeita inteligência e compaixão, que estão além de todos os limites,
Tu compreendes a carência do não eu, das coisas e das pessoas,
que é livre e limpa dos obstáculos da paixão, do saber e do egoísmo.
Tu não desapareces no Nirvana, nem o Nirvana reside em Ti,
o Nirvana transcende toda a dualidade do conhecedor e do conhecido, do ser e não ser.
Os que Te vêem assim, sereno e além da concepção, estão emancipados do apego,
limpos de todas as corrupções, neste mundo e mais além no mundo espiritual.
Neste mundo cuja natureza é como um sonho, há lugar para o elogio e a culpa,
mas na Realidade Ultima do Dharmakaya, que fica distante, além dos sentidos e da mente discriminativa,
o que há para elogiar?
Ó Tu que és o mais Sábio!”

O Bodhisattva Mahasattva Mahamati continuou dizendo:
“O Abençoado, o Um, Sugata, Arhat e O Completamente Iluminado, peço-te que nos fales sobre a realização da Nobre Sabedoria que está além do caminho e procedimentos dos filósofos; que é destituída de todos os predicados como ser e não ser, unidade e diversidade, ambos e não ambos, existência e não existência, eternidade e não eternidade; que não tem nada que ver com individualidade ou com generalidade, nem falsa imaginação, nem qualquer ilusão que surge da própria mente; mas que se manifestam, a si mesmas, como a Verdade da Mais Alta Realidade. Pelo qual, subindo continuamente pelas fases da purificação, a pessoa entra na fase final da Budeidade, e que, pelo poder dos seus votos originais, sem qualquer esforço, a pessoa radiará a sua influência para mundos infinitos, como uma pedra preciosa que reflecte as suas cores matizadas, pelo qual me será permitido, a mim e a outros Bodhisattvas Mahasattvas, trazer todos os seres à mesma perfeição da virtude.”

O Abençoado disse:
“Bem feito, bem feito, Mahamati! E novamente, bem feito, realmente! É por causa da tua compaixão pelo mundo; por causa do benefício que trará a muitas pessoas do género humano e celestial, que tu te apresentas-te perante nós, a fazer este pedido. Por isso, Mahamati, escuta bem, e reflicta verdadeiramente no que lhe direi, porque o instruirei.”

Então Mahamati e o outros Bodhisattvas Mahasattvas prestaram devota atenção ao ensinamento do Santificado.

“Mahamati, uma vez que o ignorante e o ingénuo, não sabem que o mundo, é algo, visto unicamente pela própria mente, que se apega á multiplicidade dos objectos externos, que se apega às noções de ser e não ser, unidade e diversidade, ambiguidade e não ambiguidade, existência e não existência, eternidade e não eternidade, e pensam que têm uma natureza do eu por si mesmos, e que tudo nasce das discriminações da mente, e que é perpetuada pela energia desse hábito, e do qual eles estão entregues a falsas imaginações.
É tudo como uma miragem, no qual as fontes de água são vistas como se fossem reais.
Elas são imaginadas por animais, que sedentos pelo calor da estação, correm atrás delas.
Os animais não sabem, que as fontes são somente alucinações das suas próprias mentes, e não percebem que não há fontes nenhumas.
Da mesma maneira, Mahamati, os ignorantes e os estúpidos, nas suas mentes queimadas com os fogos da ganância, raiva e loucura, encontrando deleite num mundo de numerosas formas, em que os seus pensamentos, obcecados com ideias de nascimento, crescimento e destruição, não entendendo bem qual o significado de existência e não existência, e sendo impressionados por discriminações erróneas e especulações, desde o tempo sem principio, caem no hábito de agarrar isto e aquilo, ficando assim unidos a eles.
É como a cidade de Gandharvas da qual o ignorante toma por real a cidade, quando de facto não é assim.
A cidade aparece como uma visão, devido ao apego dele, em memorizar uma cidade preservada na mente, como uma semente;
Pode-se dizer assim, que a cidade é existente e não existente.
Da mesma maneira, apegando-se à memória de especulações e doutrinas erróneas, acumuladas desde o tempo sem principio, eles agarram-se rapidamente a tais ideias como, unidade e diversidade, ser e não ser, e os seus pensamentos não são totalmente claros acerca do que é visto pela mente.
É como um homem que sonha com um país, que parece estar cheio de vários homens, mulheres, elefantes, cavalos, carros, pedestres, aldeias, cidades, vilarejos, vacas, búfalos, mansões, bosques, montanhas, rios e lagos, e que se movimenta naquela cidade até que desperta.
Com a mente meio desperta, ele recorda a cidade do sonho e revê as experiências que teve lá; o que pensas, Mahamati, é este sonhador, que deixa a sua mente enfatizar os vários irrealismos que ele viu no sonho, considerado sábio ou tolo?
Da mesma maneira, os ignorantes e estúpidos que são influenciados favoravelmente pelos pontos de vista erróneos dos filósofos, não reconhecem que os pontos de vista que os estão influenciando, são unicamente como ideias sonhadas, originadas nas suas próprias mentes, e por conseguinte eles são rapidamente controlados pelas suas noções de unidade e diversidade, de ser e não ser.
É como a tela de um pintor no qual o ignorante imagina ver as elevações e depressões das montanhas e vales.
Da mesma maneira há pessoas hoje em dia, que sendo induzidas sob a influência de pontos de vista erróneos, de unidade e diversidade, igualdade e não igualdade, cuja mentalidade está sendo condicionada pela energia dos hábitos dessas falsas imaginações e que mais tarde, declararão que aqueles que detém a verdadeira doutrina do não nascimento, do qual estão livres das alternativas do ser e não ser, são niilistas e procedendo assim, conduzirão os outros e a si mesmos à ruína.
Pela lei natural da causa e efeito esses seguidores de pontos de vista perniciosos, destroem as causas meritórias, que de outra forma os conduziriam à pureza sem mancha. Eles devem ser evitados por aqueles, cujos desejos tem objectivos mais excelentes.
É como os de visão turva, que vendo uma rede de cabelo exclamam um para o outro:
"É maravilhoso! Olhem, Honrados senhores, é maravilhoso!"
Mas a rede de cabelo nunca existiu na realidade; não é uma entidade, nem uma não entidade, já que foi visto e não foi visto.
Da mesma maneira, aqueles, cujas mentes tem sido viciadas pelas discriminações dos pontos de vista erróneos, apreciados pelos filósofos, que determinam os pontos de vista irreais do ser e não ser, contradirão o bom Dharma e acabarão na destruição deles e dos outros.
É como uma roda de fogo feita por um tição rotativo que não é nenhuma roda, mas que é imaginada, pelo ignorante, como sendo.
Também não é uma não roda, porque não foi visto por alguém.
Pelo mesmo raciocínio, os que tem o hábito de escutar as discriminações e pontos de vista dos filósofos, considerarão as coisas nascidas, como não existentes e as destruídas por causação como existentes.
É como um espelho que reflecte cores e imagens, determinado por condições mas sem qualquer parcialidade.
É como o eco do vento que dá o som de uma voz humana.
É como a miragem do movimento da água vista num deserto. Da mesma maneira a mente discriminativa do ignorante que esteve exaltada por falsas imaginações e especulações, é agitada em miragens, como ondas, pelos ventos do nascimento, crescimento, e destruição.
É como o mágico Pisaca que por intermédio dos seus feitiços faz uma imagem de madeira ou um corpo morto pulsar com vida, entretanto não tem nenhum poder em si mesmo.
Da mesma maneira o ignorante e o estúpido, se cometerem os pontos de vista filosóficos erróneos, tornam-se completamente dedicados às ideias de unidade e diversidade, mas a sua confiança não é bem fundamentada.
Por isso, Mahamati, tu e outros Bodhisattvas Mahasattvas devem rejeitar todas as discriminações que conduzem às noções de nascimento, permanência e destruições, de unidade e diversidade, igualdade e não igualdade, de ser e não ser e alcançar assim a libertação da escravidão da energia do hábito (memória), tornando-se capazes de atingir a realidade, da Nobre Sabedoria, realizável dentro de si mesmos.”

Então Mahamati disse ao Santificado:
“Porque é que o ignorante rende-se à discriminação e o sábio não?”

O Santificado respondeu:
“É porque os ignorantes agarram-se a nomes, sinais e ideias;
como as suas mentes circulam ao longo destes canais que eles alimentam, na multiplicidade dos objectos, caiem na noção de um eu alma e no que pertence a isso; eles fazem discriminações de bom e mau, entre as aparências e unem-se ao agradável.
Como eles se ligam assim, há uma inversão para a ignorância, e o karma nascido da ganância, raiva e loucura, é acumulado.
Com a continua acumulação do karma, eles tornam-se cativos num casulo de discriminação, e são desde então, incapazes de se livrarem do círculo do nascimento e morte.
Por causa da estupidez, eles não entendem que todas as coisas são como Maya, como o reflexo da lua na água, que não tem nenhum eu substância, para ser imaginado como um eu alma e o que a ele pertence, e que todas as suas ideias definitivas que nascem das suas falsas discriminações do que existe, é somente o visto pela própria mente.
Eles não percebem que as coisas não têm nada a ver com o que qualifica ou com a qualificação, nem com o curso do caminho ou nascimento, permanência e destruição, e ao invés, eles afirmam que nascem de um criador, do tempo, de átomos, de algum espírito celestial.
É por os ignorantes se entregarem à discriminação, que eles circulam no fluxo dos aparecimentos, mas não é assim com os sábios.”

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Capitulo II

Falsas imaginações e o conhecimento das aparências


Então, o Bodhisattva Mahasattva Mahamati falou para o Santificado, dizendo:
“Tu falas dos pontos de vista erróneos dos filósofos, por favor podias dizer-nos, em que é que nos devemos precaver contra eles?”

O Santificado respondeu, dizendo:
“Mahamati, o erro nesses ensinamentos erróneos são regra geral apoiados pelos filósofos no seguinte: eles não reconhecem que o mundo objectivo nasce da própria mente; eles não entendem que todo o sistema mental também surge da própria mente; mas na dependência destas manifestações da mente como sendo reais, eles descriminam-nas com a sua falta de subtileza, enquanto cultivam o dualismo disto e daquilo, de ser e não ser, ignorando o facto que há porém uma Essência comum.
Pelo contrário o meu ensinamento é baseado no reconhecimento que o mundo objectivo, como uma visão, é uma manifestação da própria mente; ensina a cessação da ignorância, desejo, acção e causalidade; ensina a cessação do sofrimento que surge das discriminações do mundo triplo.
Há alguns estudantes Brâmanes que, assumindo algo fora do nada, afirmam que há uma substância associada à causa e efeito, que sobrevive no tempo e que os elementos que compõem a personalidade e o seu ambiente têm a sua génese e continuação na causa e efeito e depois de existir deste modo, falece.
Da mesma forma há outros estudantes que têm uma visão destrutiva e niilista respeitante a assuntos tais como continuação, actividade, separação, existência, Nirvana, o Caminho, karma, realização e Verdade.
Porquê?, porque não atingiram uma compreensão intuitiva da Verdade em si mesma, e então eles não têm nenhuma visão clara dos fundamentos das coisas.
Eles são como um jarro partido aos pedaços, que não é mais capaz de funcionar como jarro; eles são como uma semente queimada que é incapaz de germinar.
Mas os elementos que compõem a personalidade e o seu ambiente, que eles consideram sujeitos à mudança, são realmente incapazes de transformações contínuas. Os seus pontos de vista são baseados em discriminações erróneas do mundo objectivo; eles não são baseados na verdadeira concepção.

Por outro lado, se é verdade que algo vem do nada e há o nascimento do sistema mental, por causa das combinações das três causas efeito produtoras, nós poderíamos dizer o mesmo de qualquer coisa não existente: por exemplo, que uma tartaruga possa cultivar cabelos, ou que a areia produza óleo. Esta proposição é de proveito nulo; termina não afirmando nada. Assim a acção, trabalho e causa das quais eles falam é inútil, e assim também é a referência deles a ser e não ser, se eles discutem que há uma combinação dos três efeitos produtores de causas, eles deveriam também fazer isso sobre o princípio da causa e efeito, quer dizer, que algo sai de algo e não de nada. Como um mundo de relatividade, é afirmado, que há uma cadeia sempre recorrendo periodicamente, da causa e efeito que não pode ser negada de forma alguma; então nós não podemos falar de nada que termine ou cesse. Enquanto estes estudantes permanecerem nas suas posições filosóficas, a sua demonstração deve conformar-se à lógica dos seus livros de ensino, e o hábito de memória de intelectualização erróneo agarrar-se-á a eles. Para piorar as coisas, os que têm falta de discernimento, envenenados por esta visão errónea, declararão que este modo incorrecto de pensar ensinado pelo ignorante, é a mesma apresentada pelo Todo Conhecedor. Mas a forma de instrução apresentada pelos Tathâgatas não está baseada em afirmações e refutações por meio de palavras e lógica. Há quatro formas de afirmação que podem ser feitas relativas a coisas não existentes, isto é: afirmações feitas sobre sinais individuais que não são existentes; sobre objectos que não são existentes; sobre uma causa que é não existente; e sobre pontos de vista filosóficos que são erróneos. Refutação significa que por causa da ignorância, alguém não examinou correctamente o erro que está na base destas afirmações.

A afirmação sobre os sinais individuais que realmente não têm nenhuma existência, diz respeito aos sinais distintivos como são percebidos pelo olho, orelha, nariz, etc., como indicando individualidade e generalidade nos elementos que compõem a personalidade e o seu mundo externo; e então, tomando estes sinais por realidade e prendendo-se a eles, criar o hábito de afirmar que as coisas são assim e não o caso contrário.

A afirmação sobre os objectos que são não existentes é uma afirmação que vem do apego a estes sinais associados de individualidade e generalidade. Os objectos em si mesmos nem são existentes nem não existentes e estão destituídos da alternativa de ser e não ser; e só devem ser pensados como quem pensa nos chifres de uma lebre, de um cavalo, ou de um camelo, que nunca existiram. Os objectos são discriminados pelo ignorante que é viciado em afirmações e negações, porque a inteligência dele não foi suficientemente aguda para penetrar na verdade, de que não há nada mais do que o que é visto pela própria mente.

A afirmação de uma causa que é não existente assume o nascimento sem causa do primeiro elemento do sistema mental que mais tarde vem a ter, somente uma não existência semelhante a Maya. Quer dizer, há filósofos que afirmam que um sistema mental não nascido originalmente, começa a funcionar debaixo das condições do olho, forma, luz e memória, funciona por um tempo e depois cessa. Este é um exemplo de uma causa que é não existente.

A afirmação da não existência por parte dos pontos de vista filosóficos relativos aos elementos que compõem a personalidade e o seu mundo envolvente, assumem a existência de um ego, um ser, uma alma, um ser vivo, um "alimentador", ou um espírito. Este é um exemplo de pontos de vista filosóficos que não são verdadeiros. É esta combinação de discriminação de sinais imaginários de individualidade, que agrupando-os e dando-lhes um nome, fixam-se a elas como objectos, por causa da energia do hábito que foi acumulada desde o tempo sem principio, que se construiu os pontos de vista erróneos cuja base é somente as falsas imaginações. Por isto os Bodhisattvas devem evitar todas as discussões relativas a afirmações e negações, cuja base é somente as palavras e a lógica.

A discriminação com as palavras, continua actuando pela coordenação do cérebro, tórax, nariz, garganta, paladar, língua, dentes e lábios. As palavras não são diferentes nem não diferentes da discriminação. As palavras surgem da discriminação tendo estas como origem; se as palavras fossem diferentes da discriminação, elas não podiam inferir discriminação pela sua causa; assim, por outro lado, se as palavras não são diferentes, elas não podem ter e expressar significado. Portanto as palavras são produzidas através de causa e efeito e são condicionadas entre si, mutuamente cambiáveis e iguais às coisas, estão sujeitas ao nascimento e destruição.


Há quatro classes de discriminação de palavras, todas elas devendo ser evitadas, porque são igualmente irreais.
Primeiro há palavras que indicando sinais individuais, que surgem das formas e sinais como sendo reais em si mesmos e então, fixam-se a eles. Há palavras que se memorizam e que surgem das imediações irreais, que aparecem diante da mente quando recorda algumas experiências prévias. Há palavras que crescem da ligação às distinções e especulações erróneas dos processos mentais.
E finalmente, há palavras que crescem dos preconceitos herdados como sementes da energia do hábito, acumuladas desde os tempos sem principio, ou que teve a sua origem em alguns desejos esquecidos, agarrados a falsas imaginações e especulações erróneas.
Assim, há palavras onde não há nenhum objecto correspondente, como por exemplo, os chifres da lebre, a criança de uma mulher estéril, etc., não há tal coisa, mas nós temos as palavras igualmente. As palavras são uma criação artificial; há terras Buda onde não há palavras. Em algumas terras Buda as ideias são indicadas olhando continuamente, noutras por gestos e noutras ainda por um franzir de testa, por um movimento dos olhos, rindo, bocejando, aclarando a garganta, ou tremelicando. Por exemplo, na terra Buda do Tathágata Samantabadra, os Bodhisattvas, por um Dhyana que transcende as palavras e ideias, atingem o reconhecimento de todas as coisas, como não nascidas e eles também experimentam os mais variados e excelentes Samádhis que transcende as palavras. Até mesmo neste mundo, seres especializados como formigas e abelhas, executam as suas actividades muito bem sem recurso às palavras.
Não, Mahamati, a validade das coisas é independente da validade das palavras.

Além disso, há outras coisas que pertencem às palavras, especificamente, o corpo sílaba das palavras, o corpo nome das palavras, e o corpo oração das palavras. Por corpo sílaba queremos dizer, o que, pelas palavras e pelas orações, indicam ou mostram que há uma razão para algumas sílabas, algumas são mnemónicas, e outras são escolhidas arbitrariamente. Através do corpo nome queremos dizer o objecto pelo qual a palavra nome obtém o seu significado, ou por outras palavras o corpo nome é a "substância" de uma palavra nome.

Por corpo oração queremos fazer referência à determinação de um significado, através do qual expressamos as palavras mais explicitas e completamente numa oração. O nome para este corpo oração é sugerido pelas pegadas deixadas na estrada por elefantes, cavalos, pessoas, cervos, gado, cabras, etc. Mas nem as palavras nem as orações podem expressar exactamente significado, porque as palavras são somente sons doces, que são escolhidas para representar coisas arbitrariamente, elas não são as coisas, são em troca, somente as manifestações da mente. A discriminação do significado é baseada na falsa imaginação de que estes sons doces, que nós chamamos palavras, são dependentes de qualquer objecto que é suposto elas significarem e que também é suposto que existam por elas mesmas, pelo qual tudo está baseado no erro. Os discípulos devem estar de guarda perante as seduções das palavras, orações e os seus significados ilusórios e errados, porque por tudo isso o ignorante e o néscio ficam emaranhados e desamparados como um elefante que tropeça sobre a lama funda.

As palavras e as orações são produzidas pela lei de causa e efeito e estão mutuamente condicionadas, elas não podem expressar a Realidade Superior. Além disso, na Realidade Superior não há nenhuma diferenciação a ser discriminada e não há nada para ser proclamado ou afirmado com respeito a Ela. A Realidade Superior é um estado se êxtase sublime de felicidade, não é um estado de palavra discriminação, e não se pode entrar nesse estado por meras declarações respeitantes a ela. Os Tathagatas têm uma forma melhor de ensinar, isto é, por auto realização da Sabedoria Nobre.

Mahamati perguntou ao Santificado:
“Te rogamos que nos fales sobre a causa e efeito de todas as coisas, por meio do qual eu e outros Bodhisattvas possam ver dentro da natureza dessa relação, à medida que ela surja e gradual ou simultaneamente não as discriminar mais.”

O Santificado respondeu:
“Há dois factores de causa e efeito por meio dos quais todas as coisas chegam à existência aparente: factores externos e internos. Os factores externos são um pedaço de barro, uma vara, uma roda, uma linha, água, um trabalhador, o trabalho dele, e a combinação destes produzem um jarro. Assim como um jarro é feito de um pedaço de barro, ou um pedaço de linha faz um pano, ou a erva fragrante faz uma esteira, ou um rebento que cresce de uma semente, ou a manteiga fresca feita do leite azedo por um homem que a agita; assim é com todas as coisas que aparecem uma depois da outra em sucessão contínua. Quanto aos factores internos de causa e efeito, eles são do género da ignorância, do desejo e do objectivo, onde todos entram na ideia de causa e efeito. Nascido destes dois factores há a manifestação da personalidade e as coisas individuais que compõem o seu ambiente, mas elas não são coisas individuais e distintas: elas só são discriminadas assim pelo ignorante.

A causa e efeito pode ser dividida em seis elementos: causa indiferente, causa dependente causa possível, causa agente causa objectiva e causa manifesta.
A causa indiferente significa que não há nenhuma discriminação presente, que não há poder de combinação presente e portanto nenhuma discriminação tem lugar, ou se está presente há uma dissolução.
A causa dependente, significa que os elementos devem estar presentes.
A causa possível significa que quando uma causa chega a ser efectiva, deve haver uma reunião apropriada das duas condições, internas e externas.
A causa agente significa que deve haver um princípio investido de autoridade, afirmado por si mesmo e com autoridade suprema, tal como um rei soberano.
A causa objectiva significa que para ser parte do mundo objectivo o sistema mental deve estar em existência e tem que estar em actividade contínua.
A causa manifesta significa que à medida que a faculdade discriminativa do sistema mental se mantém ocupada, os sinais individuais serão revelados como as formas que são reveladas pela luz de uma lâmpada.

Todas as causas são vistas, como sendo o resultado da discriminação, levadas a cabo pelo ignorante e pelo ingénuo, e portanto não há, então, tal coisa como o surgir gradual ou simultâneo da existência. Se uma tal coisa, como o surgir gradual da existência é afirmada, esta pode ser desaprovada, mostrando que não há nenhuma substância básica para unir os sinais individuais, o que faz o surgir gradual impossível. Se o surgimento simultâneo da existência é afirmado, não haverá nenhuma distinção entre causa e efeito e não haverá nada que caracterize uma causa como tal. Enquanto uma criança não tenha nascido, o termo pai não tem nenhum significado. Os lógicos argumentam que há o que nasce e o que dá o nascimento pela interacção mútua de tais factores causais como causa, substância, continuidade, aceleração, etc., e assim eles concluem que há um surgimento gradual da existência; mas este surgimento gradual não se obtém, unicamente por causa do apego à noção de uma natureza própria.

Quando as ideias do corpo, propriedade e residência, são vistas, discriminadas e apreciadas, no fim de contas nada é mais do que, o que é concebido pela própria mente, e um mundo externo é percebido debaixo do aspecto de individualidade e generalidade, que porém, não é realidade, nem um surgimento gradual nem um surgimento simultâneo das coisas é possível. É então somente quando o sistema mental entra em actividade e discrimina as manifestações da mente, que a existência por assim dizer torna-se percebida. Por estas razões, Mahamati, deves libertar-te das noções de valor e simultaneidade na combinação das actividades causais.”

Mahamati perguntou:
“Abençoado: Que tipo de discriminação e a que tipo de pensamentos deve ser aplicado o termo, falsa imaginação?”

O Santificado respondeu:
“Enquanto as pessoas não entenderem a verdadeira natureza do mundo objectivo, elas sempre entrarão na visão dualística das coisas. Elas imaginam a multiplicidade dos objectos externos como sendo reais e são presas a eles e alimentadas pela sua energia do hábito. Por causa deste sistema de actividade mental, e o que a ele pertence, tudo é discriminado e é pensado como sendo real; isto conduz à afirmação de um ego alma e o que a ele pertence, e assim o sistema move-se, funcionando. Dependendo do apego aos hábitos dualísticos da mente, elas aceitam as pontos de vista dos filósofos, apoiadas nestas distinções erróneas, de ser e não ser, existência, e não existência, e lá evolui o que nós chamamos, falsas imaginações.
Mas Mahamati, a discriminação não evolui nem é posta de lado, porque, quando tudo aquilo que é visto é reconhecido como nada e vemos que não é senão verdadeiramente a manifestação da mente, como pode a discriminação evoluir dessa maneira em ser e não ser?.
É por causa dos ignorantes, que são viciados nas discriminações e multiplicidade das coisas, que pertencem à sua própria mente, que eu digo que a discriminação surge devido ao apego do aspecto da multiplicidade que é característico dos objectos.
Como pode, em caso contrário o ignorante e o ingénuo reconhecer que não há nada mais, do que o que é visto pela própria mente, e como caso contrário podem eles ganhar um discernimento dentro na verdadeira natureza da mente e serem capazes de se livrarem das concepções erradas da causa e efeito?
Como podem eles adquirir uma concepção clara das fases do Bodhisattva , alcançar e "inverter" o intimo profundo das suas consciências, e finalmente atingir uma auto realização interna da Sabedoria Nobre que transcende os cinco Dharmas, as três Ego naturezas, e a ideia inteira de uma Realidade discriminada?
Por isto eu digo que a discriminação surge da mente apegada à multiplicidade das coisas que não são reais em si mesmas e que a emancipação vem de entender completamente o significado da Realidade como ela verdadeiramente é.
As falsas imaginações nascem das considerações das aparências; as coisas são discriminadas tanto na forma, como nos sinais e na forma; como ter cor, calor, humidade, mobilidade ou rigidez. A falsa imaginação consiste em ficar apegado a essas aparências e aos seus nomes. Por apego aos objectos queremos dizer, o apegar-se às coisas internas e externas como se fossem reais. Por apego aos nomes queremos significar, o reconhecimento nestas coisas internas e externas dos sinais característicos da individualidade e generalidade, e os considerar como definitivamente pertencendo aos nomes dos objectos.
A falsa imaginação ensina que, como todas as coisas estão afectas com causas e condições da energia do hábito que se foi acumulando desde os tempos sem principio, o facto de não reconhecer que o mundo externo é a própria mente, faz com que todas as coisas sejam compreensíveis debaixo dos aspectos da individualidade e generalidade. Por causa de se agarrar a essas falsas imaginações há um sem numero de aparências, que são imaginadas como reais mas que são só imaginações.
Uma ilustração: quando um mágico utiliza a erva, a mata, os arbustos e as trepadeiras, para exercer a sua arte, muitas formas e seres que são somente criados magicamente tomam forma; às vezes elas igualam figuras que têm corpos, que se movimentam e agem como seres humanos; elas são por diversas formas imaginadas e discriminadas, mas não há nenhuma realidade nelas; todos, menos as crianças e os ingénuos, sabem que elas não são reais. Igualmente com base na noção da falsa imaginação da relatividade, percebemos uma variedade de aparências que a mente discrimina e desenvolve, objectivando-as e dando-lhes um nome, e apegando-se a elas, a memória e a energia
hábito perpetuam-nas. Isto é tudo o que é necessário para constituir uma natureza do eu de falsas imaginações.
Podem ser distinguidas várias características de falsa imaginação como se segue: em relação a palavras, significados, sinais individuais, propriedade, natureza do eu, causa, pontos de vista filosóficos, raciocínio, nascimento, não nascimento, dependência, escravidão e emancipação.

A discriminação das palavras é o apego à formação de vários sons que contêm significados familiares.
A discriminação do significado, vem, quando a pessoa imagina que a formulação das palavras, surgem dependendo de qualquer tema que se quer expressar e que tais temas são considerados como existentes em si mesmos.
A discriminação dos sinais individuais, é imaginar que tudo o que é denotado em palavras, relativas às multiplicidades dos sinais individuais (o qual elas são como uma miragem) é verdadeiro, e apegando-se tenazmente a elas, separar todas as coisas de acordo com tais categorias como calor, fluidez, mobilidade, e solidez.
A discriminação da propriedade é desejar um estado de riqueza, tal como ouro, prata, e várias pedras preciosas.
A discriminação da natureza própria é fazer discriminações de acordo com as pontos de vista dos filósofos, em referência à natureza própria de todas as coisas, que eles imaginam e de forma decisiva mantêm como ser verdade, enquanto dizem: "Isto é o que é e não pode ser de outra forma."
A discriminação da causa é distinguir a noção de causa e efeito em referência a ser e a não ser e imaginar que há tais coisas como "sinais de causa."
A discriminação dos pontos de vista filosóficos significa considerar pontos de vista diferentes, relativos às noções de ser e não ser, unidade e diferença, ambos e não ambos, existência e não existência, todos dos quais são erróneos, e apegar-se a esses pontos de vista específicos.
A discriminação do raciocínio refere-se ao ensinamento cujo argumento é baseado no apegar-se à noção e substância do eu e o que pertence a ele.
A discriminação do nascimento apegando-se à noção de que as coisas chegam à existência e diluem-se nela de acordo com a causa e efeito.
A discriminação do não nascimento é ver aquelas substâncias sem causa, que não eram, virem à existência, por causa, da causa e efeito.
A discriminação da dependência significa a mútua dependência do ouro e dos fios (colares) feitos dele.
A discriminações da escravidão e imaginação é como imaginar que há algo ligado por alguma coisa obrigatória, como no caso de um homem que faz um nó e depois o desata.

Estas são as várias características da falsa imaginação, à qual todos os ignorantes e tolos se agarram. Os que se agarram à noção de relatividade, ficam apegados à noção de variedade das coisas que surgem da falsa imaginação. É como ver as variedades de objectos que dependem de Maya, mas estas variedades que se revelam assim, são discriminadas pelo ignorante pelo seu próprio modo de pensar, é algo diferente da própria Maya. A verdade é que Maya e a variedade dos objectos, nem são diferentes, nem não diferentes; se eles fossem diferentes, a variedades dos objectos teriam a característica não Maya; se eles fossem não diferentes, não haveria nenhuma distinção entre eles. Mas como à uma distinção entre os dois, Maya e a variedade de objectos, nem são diferentes nem não diferentes, por uma boa razão: eles são uma só coisa.”

Mahamati perguntou ao Santificado:
“É o erro uma entidade ou não?”

O Santificado respondeu:
“O erro não tem nenhuma natureza nem traz apego; se o erro tivesse tal característica, nenhuma libertação seria possível do seu apego à existência, e a corrente original só seria entendida no sentido da criação como os filósofos a apoiam. O erro é como Maya, e também como Maya, é incapaz de produzir outra Maya, assim o erro em si mesmo não pode produzir erro; é a discriminação e o apego que produzem os maus pensamentos e as faltas. Além disso, Maya não tem nenhum poder de discriminação em si mesmo; só nasce quando invocado pelo charme do mágico. O erro não tem em si mesmo nenhuma energia do hábito; a energia do hábito só nasce da discriminação e do apego. O erro em si mesmo não tem nenhuma falta; as faltas são devidas às discriminações confusas apreciadas pelo ignorante relativas ao ego alma e à sua mente. O sábio não tem nada que ver com Maya ou com o erro. Porém, Maya não é uma irrealidade porque só tem a aparência de realidade; todas as coisas têm a natureza de Maya. Não é porque todas as coisas são imaginadas e nos apegamos a elas, pelos numerosos sinais individuais, que elas são como Maya; é porque elas são igualmente irreais, tão depressa aparecem e desaparecem. Estando presos a pensamentos erróneos eles confundem e contradizem-se a si mesmos e aos outros. Como eles, não constatam claramente o facto, que o mundo é não mais que a própria mente, eles imaginam e prendem-se à causa e efeito, trabalho, nascimento, sinais individuais e os seus pensamentos são caracterizados pelo erro e falsas imaginações. O ensinamento diz que todas as coisas são caracterizadas pela natureza própria de Maya e que o sonho é a forma de fazer com que o ignorante e o ingénuo ignorem a ideia de uma natureza própria em todas as coisa.
A falsa imaginação ensina que coisas tais como luz e sombra, grande e pequeno, preto e branco são diferentes e devem ser discriminadas; mas elas não são independentes uma da outra; elas são só aspectos diferentes da mesma coisa, elas são condições de relação e não de realidade. As condições de existência não são de carácter mutuamente exclusivo; em essência as coisas não são dois mas um. Até mesmo o Nirvana e o mundo do Samsara da vida e da morte são aspectos da mesma coisa, porque não há Nirvana excepto onde há Samsara, nem Samsara excepto onde há Nirvana. Toda a dualidade é imaginada falsamente.

Mahamati, tu, e todos os Bodhisattvas devem-se disciplinar na realização e aceitação paciente das verdades do vazio, não nascimento, não natureza própria e não dualidade de todas as coisas. Este ensinamento é encontrado em todos os sutras de todos os Buddhas e é apresentado para se adequar ás variadas inclinações de todos os seres, mas não é a Verdade em si mesma. Estes ensinamentos são só um dedo que aponta para a Sabedoria Nobre. Eles são como uma miragem, com as suas fontes de água, que os cervos tomam como real e que depois perseguem.
Assim com respeito aos ensinamentos em todos os sutras: Eles são destinados à consideração e orientação das mentes discriminativas de todas as pessoas, mas eles não são a Verdade em si que só pode ser percebida pelo próprio dentro da consciência profunda da própria pessoa.

Mahamati, tu e todos os Bodhisattvas têm que procurar este entendimento de auto realização interna da Sabedoria Nobre, e não serem seduzidos pelo ensinamento das palavras.”

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Capítulo III

O Conhecimento Correcto ou o Conhecimento das Relações


Então Mahamati disse:
“Abençoado, pedimos-te que nos fales, sobre o ser e o não ser de todas as coisas.”

O Abençoado respondeu:
“As pessoas deste mundo são dependentes do seu pensamento numa de duas coisas: na noção de ser, pelo qual elas adquirirem prazer no realismo, ou na noção de não ser por meio do qual elas adquirem prazer no niilismo; em ambos os casos, elas imaginam emancipação onde não há nenhuma emancipação. Os que são dependente das noções do ser, consideram o mundo como surgindo de uma causa e efeito que é realmente existente, e que este existindo de facto, não toma o seu aparecimento de uma causa e efeito que é não existente. Esta é a visão realística como é apoiada por algumas pessoas. Então há outras pessoas que são dependente da noção do não ser de todas as coisas. Estas pessoas admitem a existência da ganância, raiva e loucura, e ao mesmo tempo negam a existência das coisas que produzem a ganância, a raiva e a loucura. Isto não é racional, porque a ganância, a raiva e a loucura não são consideradas mais reais, do que são as coisas; elas não têm substância nem sinais individuais. Onde há um estado de dependência, há obrigações e as condições para as manter; mas onde há emancipação, como no caso dos Buddhas, Bodhisattvas, mestres e discípulos que deixaram de acreditar em ser e não ser, não há escravidão, obrigações, nem condições para obrigar.
É melhor apreciar a noção de um eu substância, do que manter em mente a noção de vazio derivado do ponto de vista do ser e não ser, porque os que assim acreditam, não entendem o facto fundamental que o mundo externo, não é nada mais que uma manifestação da mente. Porque eles vêem as coisas como passageiras, como surgidas de causa e desaparecendo de causa, ora divididas, ora combinadas nos elementos que compõem os agregados da personalidade e o seu mundo externo, ora desaparecendo, eles são sentenciados a sofrer cada momento das mudanças que se seguem uma depois da outra, e finalmente são sentenciados à ruína.”

Então Mahamati pediu ao Abençoado:
“Diga-nos Abençoado, como todas as coisas podem ser vazias, não nascidas, e não ter nenhuma natureza própria, de forma que nós possamos despertar e depressa perceber o esclarecimento mais elevado.”

O Abençoado respondeu:
“O que é na realidade o vazio? É um termo cuja natureza em si é uma falsa imaginação, mas por causa do apego à falsa imaginação nós somos obrigados a falar do vazio, do não nascimento, e da não natureza própria.
Há sete tipos de vazio:
Vazio de reciprocidade que é não existência.
Vazio de sinais individuais.
Vazio de natureza própria.
Vazio de não trabalho, vazio de trabalho.
Vazio de todas as coisas no sentido de que elas são imprevisíveis, e vazio no sentido mais elevado da Realidade Última.
Por vazio de reciprocidade que é não existente significa que, quando uma coisa é omitida aqui, a pessoa fala dela como estando vazia aqui. Por exemplo: No corredor de conferências de Mrigarama não há elefantes presente, nem touros, nem ovelhas; mas há muitos monges presente. Nós podemos falar justamente do corredor, como estando vazio dos animais a que nos referimos. Não é afirmado que o corredor de conferências está vazio das suas características próprias, ou que os monges estão vazios do que os faz ser monges, nem que, em algum outro lugar, não há elefantes, touros, nem ovelhas. Neste caso nós estamos falando de coisas, no aspecto da sua individualidade e generalidade, mas do ponto de vista da reciprocidade não existem coisas em lugar algum. Esta é a mais baixa forma de vazio e deve ser diligentemente posta de lado.
Por vazio de sinais individuais significa que todas as coisas não têm nenhum sinal distinto de individualidade e generalidade. As relações mútuas e as interacções das coisas são discriminadas superficialmente, mas quando elas são mais cuidadosamente investigadas e analisadas elas são vistas como não existentes e nada sobre individualidade e generalidade podem ser ditas delas. Assim quando já não podem ser vistos sinais individuais, ideias do eu, do outro e de ambos, já não são benéficas. Assim deve ser dito que todas as coisas são vazias de sinais próprio.
Por vazio de natureza própria, significa que todas as coisas na sua natureza própria são não nascidas; então, diz-se que as coisas são vazias de natureza própria.
Por vazio de ’ não trabalho ' significa que o agregado dos elementos que compõem a personalidade e o seu mundo externo é o próprio Nirvana e desde o princípio não há actividade neles; então, fala-se de vazio de ' não trabalho '.
Por vazio de trabalho significa que os agregados sendo destituídos de um eu e o que a ele pertence, continuam a funcionar automaticamente porque há uma conjugação mútua de causas e condições; assim fala-se de vazio de trabalho.
Por vazio de todas as coisas no sentido em que elas são imprevisíveis, significa que, como a sua particular natureza de falsa imaginação é inexprimível, assim todas as coisas são imprevisíveis, e, então, são vazias naquele sentido.
Por vazio no sentido mais alto de vazio da Realidade Última, significa que no alcançar a auto realização interna da Sabedoria Nobre, não há traços alguns de energia do hábito gerados por concepções erróneas; assim a pessoa fala do vazio mais elevado da Realidade Última.
Quando as coisas são examinadas pelo conhecimento correcto, não há sinais obtidos, que os possam caracterizar como sinais de individualidade e generalidade, então, diz-se que eles não têm natureza própria. Porque estes sinais de individualidade e generalidade são ambos vistos como existindo e no entanto, são conhecidos como não existentes, são como existindo, e conhecidos como não existindo, eles nunca são aniquilados.
Porque é isto verdade?
Por isto; porque os sinais individuais que compõem a natureza própria de todas as coisas são não existentes.
Assim as coisas na sua natureza própria são eternas e não eternas. As coisas não são eternas porque os sinais de individualidade aparecem e desaparecem, isto é, os sinais da natureza própria são caracterizadas pelo não eterno. Por outro lado, porque as coisas são não nascidas e só são feitas pela mente, elas são num sentido profundo eternas. Quer dizer, as coisas são eternas pela sua não eternidade .
Assim, além de entender o vazio de todas as coisas, com respeito à substância e à natureza própria, é necessário que os Bodhisattvas entendam claramente que todas as coisas são não nascidas. Não é afirmado que as coisas são não nascidas num sentido superficial, mas que num sentido profundo elas são não nascidas delas mesmas. Tudo aquilo que pode ser dito, é isto: relativamente falando, há um fluxo constante de chegar a ser, uma mudança momentânea e ininterrupta de um estado de aparecimento para outro. Quando é reconhecido que o mundo tal como se apresenta, não é mais que uma manifestação da mente, então o nascimento é visto como não nascimento, e todos os objectos existentes, relacionados com a discriminação que afirma que eles são e não são, é não existente e, então, não nascidos; sendo destituídas de causa e acção as coisas são não nascidas.

Se as coisas são não nascidas de ser e de não ser, mas são simplesmente manifestações da própria mente, elas não têm realidade, nem natureza própria: elas são como os chifres da uma lebre, de um cavalo, de um burro, ou de um camelo. Mas o ignorante e o ingénuo, que são dados às suas falsas e erróneas imaginações, discriminam coisas onde elas não existem. Para o ignorante os sinais característicos da natureza própria de residência e propriedade corporal parecem ser fundamentais e estão enraizadas na natureza da mente em si, assim ele discrimina as suas numerosas entidades e torna-se como sendo elas.
Há dois tipos de apegos:
Apego aos objectos como tendo uma natureza própria, e apego às palavras como tendo uma natureza própria.
O primeiro acontece por não saberem que o mundo externo é só uma manifestação da própria mente; e o segundo surge do apegar-se a palavras e nomes por causa do hábito energia. No ensinamento do não nascimento, a causa e efeito está fora de causa, porque, vendo que todas as coisas são como Maya e um sonho, a pessoa não separa os sinais individuais. Que todas as coisas são não nascidas e não têm natureza própria porque elas são como Maya é ir ao encontro dos pontos de vista dos filósofos em que o nascimento acontece por causa e efeito. Eles nutrem a noção que o nascimento de todas as coisas é derivado do conceito de ser e não ser, e não consideram isso como verdadeiramente é, como causado pelo apego às numerosas discriminações que surgem da própria mente.
Os que acreditam no nascimento de algo que nunca existiu e, que vindo à existência, desaparece, são obrigados a afirmar que as coisas vêm à existência e desaparecem, através da causa e efeito - tais pessoas não encontram uma posição segura nos meus ensinamentos. Quando percebem que não há nada nascido, e nada que falece, então não há forma de admitir o ser e o não ser, e a mente torna-se tranquila.”

Então Mahamati disse ao Abençoado:
“Os filósofos declaram que o mundo surge dos agentes causais de acordo com as leis de causa e efeito; eles declaram que a sua causa é não nascida e não aniquilada. Eles mencionam nove elementos primários: Ishvara o Criador, a Criação, átomos, etc., os quais sendo elementares são não nascidos e não há aniquilação. O Abençoado, ensina que todas as coisas são não nascidas e que não há aniquilação, também declara que o mundo surje da ignorância, da discriminação, do apego, da acção, etc., funcionando de acordo com a lei de causa e efeito. Embora os dois grupos de elementos possam diferir em forma e nome, não parece existir qualquer diferença essencial entre as duas posições. Se há qualquer coisa que é distinta e superior nos ensinamentos do Abençoado pedimos-te que nos digas, o que é.”

O Abençoado respondeu:
“O meu ensinamento de não nascimento e não aniquilação não é como o dos filósofos, nem é como a sua doutrina de nascimento e impermanência. O que os filósofos designam como característica de não nascimento e não aniquilação é a natureza própria de todas as coisas que os fazem entrar no dualismo do ser e não ser. O meu ensinamento transcende a concepção completa do ser e não ser; não tem nada que ver com o nascimento, a continuidade e a destruição; nem com existência e não existência. Eu ensino que a numerosidade dos objectos não têm realidade em si mesmos, são somente vistos pela mente e, portanto, são da natureza de Maya e de um sonho. Eu ensino a não existência das coisas porque elas não tem sinal algum de qualquer natureza própria inerente a elas. É verdade que num sentido, são vistas e discriminadas pelos sentidos como objectos individuais; mas por outro lado, por causa da ausência de qualquer sinal característico da natureza própria, elas não são vistas, mas somente imaginadas. Num certo sentido eles são compreensíveis, mas noutro, eles não são compreensíveis.
Quando é claramente compreendido que não há nada no mundo, a não ser o que é visto pela própria mente, a discriminação não surgirá mais, e o sábio residirá no seu verdadeiro domicílio que é o reino de quietude. O ignorante discrimina e trabalha, tentando-se ajustar às condições externas, e é constantemente perturbado pela mente; as irrealidades são imaginadas e discriminadas, enquanto as realidades não são vistas e são ignoradas. Isto não é assim com o sábio.
Uma ilustração desta ideia: O que o ignorante vê é como a cidade magicamente criada dos Gandharvas onde são mostradas as crianças, as ruas, as casas, os comerciantes fantasma, e as pessoas, entrando e saindo. Esta cidade imaginária com as suas ruas e casas e as pessoas entrando e saindo, não são pensadas como nascidas ou aniquiladas, porque neste caso, não há nenhuma duvida sobre a sua existência ou não existência. Da mesma forma, eu ensino, que não há nada feito nem não feito; que não há nada que tenha conexão com o nascimento e a destruição, excepto, como o ignorante gosta falsamente de imaginar, noções como as da realidade do mundo externo.
Quando os objectos não são vistos e julgados, como eles verdadeiramente são em si mesmos, há discriminação e apego às noções de ser e não ser, e à individualidade da natureza própria, e enquanto estas noções de individualidade e natureza própria persistirem, os filósofos encontram-se limitados para explicar o mundo externo por uma lei de causa e efeito. Esta posição levanta a pergunta de uma causa primeira, à qual os filósofos respondem afirmando que a sua primeira causa, Ishvara e os elementos primitivos, são não nascidos e não aniquilados; tal posição é sem evidência e é irracional.
As pessoas ignorantes e os filósofos mundanos apreciam um género de não nascimento, mas não é esse género de não nascimento que eu ensino. Eu ensino o não nascido da essência do não nascimento de todas as coisas, ensinamento que está instituído nas mentes dos sábios pela sua auto realização da Sabedoria Nobre. Uma concha, a argila, um recipiente, uma roda, ou sementes, ou elementos, estas são condições externas; ignorância, discriminação, apego, hábito, karma, - estas são condições internas. Quando este universo inteiro é considerado como concatenação e nada mais que uma concatenação, então a mente, por sua aceitação paciente da verdade que todas as coisas são não nascidas, ganha tranquilidade.”



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Capítulo IV

O Conhecimento Perfeito ou o Conhecimento da Realidade


Então Mahamati perguntou ao Santificado:
“Abençoado, pedimos-te que nos fales sobre os cinco Dharmas, de forma a que possamos compreender completamente o conhecimento perfeito.”

O Santificado respondeu:
“Os cinco Dharmas são: a aparência, o nome, a discriminação, o conhecimento correcto, e a Realidade.
Por aparência, significa que o que se revela aos próprios sentidos e à mente discriminativa e é percebido como forma, som, odor, gosto, e toque. Destas aparências, formam-se as ideias, como barro, água, jarro, etc., pelo que se pode dizer: isto é assim e assim e não outra coisa, tal como é chamado. Quando são contrastadas as aparências e os nomes comparados, como quando nós dizemos: isto é um elefante, isto é um cavalo, um carro, um pedestre, um homem, uma mulher, ou, esta é a mente e o que a ela pertence, as coisas assim chamadas, diz-se que são discriminadas. Como estas discriminações são reciprocamente condicionadas, vazias de substância própria, não nascidas, e assim são vistas como verdadeiramente são, isso é, como manifestações da própria mente, este é o conhecimento correcto. Por isso o sábio deixa de considerar as aparências e os nomes como realidades.

Quando as aparências e os nomes são afastados e toda a discriminação cessa, o que resta é a verdade e a natureza essencial das coisas e, como nada pode ser dito sobre a natureza da essência, é chamada a "Qualidade Essencial" da Realidade.
Esta universal, indiferenciada, inescrutável, "Qualidade Essencial" é a única Realidade, mas ela é variavelmente caracterizada e descrita como a Verdade, A Essência da Mente, Inteligência Transcendental, Sabedoria Nobre, etc.
Este Dharma sem imagem da Natureza Essencial da Última Realidade é o Dharma que foi proclamado por todos os Buddhas, e quando todas as coisas forem completamente compreendidas de acordo com isto, a pessoa está na posse do Conhecimento Perfeito e está a caminho de alcançar a Inteligência Transcendental dos Tathágatas.”

Então Mahamati perguntou ao Santificado:
“São as três naturezas próprias das coisas, as ideias, e a Realidade, consideradas como excluídas nos Cinco Dharmas, ou como tendo as suas próprias características completas nelas mesmas?”

O Santificado respondeu:
“As três naturezas próprias, o sistema mental óctuplo, e o não eu dualístico, todos estão incluídos nos Cinco Dharmas. As naturezas próprias das coisas, das ideias, e do sistema mental sêxtuplo, correspondem com os Dharmas da aparência, do nome e da discriminação; a natureza própria da Mente Universal e da Realidade corresponde aos Dharmas do conhecimento correcto e da "Qualidade Essencial."
Quando nos apegamos ao que é visto pela própria mente, é despertada uma actividade que é perpetuada pela energia do hábito, e que se manifesta no sistema mental; das atividades do sistema mental surge a noção de um ego alma e de posse; as discriminações, apegos, e a noção de um ego alma, nascem simultaneamente como o sol e os seus raios de luz.
Por não eu das coisas, significa que os elementos que compõem os agregados da personalidade e do seu mundo objectivo, são caracterizados pela natureza de Maya e destituídos de qualquer coisa que possa ser chamada substância própria; são portanto não nascidos e não têm nenhuma natureza própria.
Como pode ser dito que as coisas têm um ego alma?
Por não ego das pessoas, significa que nos agregados que compõem a personalidade não há nenhum ego substância, nem qualquer coisa que seja como um ego substância nem nada que lhe pertença. O sistema mental que é o sinal mais característico da personalidade, tem origem na ignorância, discriminação, desejo e acção; e as suas atividades são perpetuadas por; entender, agarrar, e apegar-se a objectos como se eles fossem reais. A memória destas discriminações, desejos, apegos e acções, está armazenada na Mente Universal desde o tempo sem principio, e ainda está sendo acumulado onde ela condiciona a aparência da personalidade e o seu meio ambiente e provoca mudanças constantes e destruição, de momento para momento. As manifestações são como um rio, uma semente, uma lâmpada, uma nuvem, o vento; a mente Universal na sua voracidade para acumular tudo, é como um macaco que nunca repousa, como uma mosca à procura de comida e sem preferências, como um fogo que nunca está satisfeito, como uma nora sempre a girar. A mente Universal quando está suja pela energia do hábito, é como um mágico que faz coisas fantasmagóricas com pessoas a aparecer e a se moverem. Uma total compreensão destas coisas é necessária para compreender o não ego das pessoas.

Há quatro tipos de Conhecimento:
O conhecimento das aparências, o conhecimento relativo, o conhecimento perfeito, e a Inteligência Transcendental.
O conhecimento das aparências pertence ao ignorante e ao ingénuo que são viciados na noção do ser e não ser, e que são atemorizados pelo pensamento de ser não nascido. Isto é produzido pela concordância da combinação tripla e apego à multiplicidade de objectos; é caracterizado pela acessibilidade e acumulação; está sujeito ao nascimento e à destruição.
O conhecimento das aparências pertence aos que utilizam uma linguagem descuidada ou pretensiosa de pouco ou nenhum respeito, e que se divertem em discriminações, afirmações, e negações.

O conhecimento relativo pertence ao mundo mental dos filósofos. Nasce da habilidade da mente para considerar as relações que surgem de cada um e à mente que as considera, nasce da habilidade das mentes para organizar, combinar, e analisar estas relações, pelos seus poderes de lógica discursiva e imaginativa, pela razão de que têm capacidade de vislumbrar a importância e o valor das coisas.

O conhecimento Perfeito (jnana) pertence ao mundo dos Bodhisattvas que reconhecem que todas as coisas são manifestações da mente; que entendem claramente o vazio, o não nascido, o não ego de todas as coisas; e que entraram na compreensão dos Cinco Dharmas, o duplo não ego, e na verdade da não imagem. O conhecimento Perfeito diferencia as etapas do Bodhisattva, e é o caminho e a entrada no estado exaltado da auto realização de Sabedoria Nobre.
O conhecimento Perfeito pertence aos Bodhisattvas que são completamente livres dos dualismos do ser e não ser, não nascimento e não aniquilação, de todas as afirmações e negações, e que, por causa da auto realização, ganharam uma perspicácia nas verdades do não ego e não imagem. Eles já não discriminam o mundo como sujeito a causa e efeito: eles consideram a causa e efeito que rege o mundo como alguma coisa como a cidade lendária dos Gandharvas. Para eles o mundo é como uma visão e um sonho, é como o nascimento e morte de uma criança de uma mulher estéril; para eles não há nada evoluindo e nada que desaparece.
Os sábios que apreciam o conhecimento Perfeito, podem ser divididos em três classes, discípulos, mestres e Arhats.
Os discípulos comuns são separados dos mestres como discípulos comuns, porque continuam a cultivar a noção de individualidade e generalidade; os mestres surgem dos discípulos comuns quando, abandonando os erros da individualidade e generalidade, eles ainda se agarram à noção de um ego alma, do qual eles saiam por si mesmos em retiros e solidão.
Os Arhats surgem quando o erro de toda a discriminação é entendido. O erro sendo discriminado pelo sábio transforma-se em Verdade pela virtude da "inversão" que toma lugar dentro da consciência profunda. A mente assim emancipada, entra na auto realização perfeita da Sabedoria Nobre.

Mas, Mahamati, se tu afirmas que há uma tal coisa como a Sabedoria Nobre, isso não é bom, porque qualquer coisa que seja afirmada, participa através disso da natureza do ser e é assim caracterizada com a qualidade do nascimento.
A afirmação: "Todas as coisas são não nascidas destrói a veracidade disto.
O mesmo é verdade das declarações: "Todas as coisas são vazias", e "Todas as coisas não têm natureza própria", ambas são insustentáveis quando postas na forma de afirmações. Mas quando é indicado que todas as coisas são como um sonho e uma visão, significa isso que de um modo elas são percebidas, e de outro modo não são percebidas; quer dizer, na ignorância elas são percebidas, mas no conhecimento Perfeito elas não são percebidas. Todas as afirmações e negações que são construídas pelo pensamento, são não nascidas. Até mesmo a afirmação que a Mente Universal e a Sabedoria Nobre são a Realidade Ultima, é uma construção do pensamento e portanto é não nascida. Como "coisa" não há Mente Universal, não há Sabedoria Nobre nem há Realidade Ultima. A perspicácia do sábio que se move no reino de não imagem e da sua solidão é pura. Quer dizer; para o sábio todas as "coisas" são removíveis e até o estado de não imagem deixa de existir.”



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Capítulo V

O Sistema Mental


Então Mahamati disse ao Santificado:
“Abençoado suplicamos te que nos digas: o que se entende por mente (citta)?”

O Santificado respondeu:
“Todas as coisas deste mundo, sejam elas aparentemente boas ou ruins, defeituosas ou sem defeito, produtoras de efeito ou não produtoras de efeito, receptivas ou não receptivas, podem ser divididas em duas classes: as más emanações e as boas não emanações. Os cinco elementos do apego que compõem os agregados da personalidade, denominados, forma, sensação, percepção, discriminação, e consciência, e que se imagina ser bom ou ruim, têm o seu aparecimento na energia do hábito do sistema mental, são as más emanações da vida. As realizações espirituais e as alegrias dos Samádhis e a frutificação dos Samapatis inerente ao sábio, através da sua auto realização da Sabedoria Nobre e que culmina no seu regresso e participação nas relações do mundo triplo, são chamadas as boas não emanações.

O sistema mental que é a fonte das más emanações, consiste nos órgãos dos cinco sentidos e da sua acompanhante, a mente dos sentidos (Vijnanas), sendo todos eles unificados na mente discriminativa (manovijnana). Há uma sucessão interminável de conceitos sensoriais que flúem nesta discriminação ou mente pensante, que os combinam, os separam e os julgam pela sua bondade ou maldade. Então segue-se a aversão ou o desejo deles, para o apego e a acção; e assim os movimentos do sistema completo, movem-se contínua e firmemente unidos. Mas fracassa em ver e entender, que o que vê, discrimina e se apega é só uma manifestação da sua própria actividade e que não têm qualquer fundamento, e assim a mente vai percebendo erradamente, separando diferenças de formas e qualidades, sem permanecer calma e uniforme durante um minuto.

No sistema mental distinguem-se três modelos de actividade: as mentes sensoriais que funcionam enquanto permanecem na sua natureza original, as mentes sensoriais como produtoras de efeitos, e as mentes sensoriais como desenvolvimento.
No seu normal funcionamento, as mentes sensoriais apegam-se aos elementos apropriados do seu mundo externo, pelo qual, a sensação e a percepção surgem imediatamente e por extensão, em todos os órgãos e em todas as mentes sensoriais, nos poros da pele, e até mesmo nos átomos que compõem o corpo pelo qual o campo inteiro é apreendido como um espelho que reflecte objectos, e não percebendo que o próprio mundo externo é só uma manifestação de mente

O segundo modelo de actividade, produz efeitos pelos quais estas sensações reagem na mente discriminativa, produzindo percepções, atracções, aversões, apegos, acções e hábitos.

O terceiro modelo de actividade, tem que ver com o crescimento, desenvolvimento e transcurso do sistema mental, quer dizer, o sistema mental está sujeito à sua própria energia do hábito acumulada desde o tempo sem princípio, como por exemplo: o "olhar" no olhar que predispõe ao apego e que se prende a múltiplas formas e aparências. Deste modo as actividades do sistema mental evoluindo por causa da sua energia do hábito incita as ondas da objectividade, diante da Mente Universal, o qual uma após outra, condicionam as actividades e o desenvolvimento do sistema mental.
Aparência, percepção, atracção, apego, acção, hábito, reacção, condicionam-se uns aos outros incessantemente, e assim o funcionamento das mentes sensoriais, a mente discriminativa e a Mente Universal, são desta forma entrelaçadas. Assim, por causa desta discriminação que por natureza é como Maya, a falsa imaginação irreal e o raciocínio erróneo acontecem, a acção progride e a sua energia do hábito acumula-se, poluindo através disso a face pura da Mente Universal, e como consequência o sistema mental entra em funcionamento e o corpo físico tem a sua génese. Mas a mente discriminativa não pensa que pelas suas discriminações e apegos está condicionando todo o corpo e assim as mentes sensoriais e a mente discriminativa vão-se mutuamente relacionando e mutuamente condicionam-se de uma forma cada vez mais íntima e construindo um mundo de relações fora das atividades da sua própria imaginação. Como um espelho que reflecte as formas, os sentidos da percepção, percebem as aparências que a mente discriminativa conjuntamente recolhe, e procede à discriminação, nomeando as (dando-lhes nomes) e pegando-se a elas. Entre estas duas funções não há nenhum espaço, não obstante, elas surgem mutuamente condicionantes.
Os sentidos da percepção apegam-se ao que eles têm afinidade, e há uma transformação que tem lugar na sua estrutura pelo qual a mente tem como resultado; combinar, discriminar, notificar, e actuar; então prosseguirá na sua energia do hábito institucionalizando a mente e a sua continuidade.

A mina de onde é extraída a discriminação, devido à sua capacidade para discriminar, julgar, seleccionar e argumentar sobre, também é chamada a mente pensante, ou a mente intelectual.
Há três divisões da sua actividade mental: o pensamento que funciona em relação ao apego a objectos e ideias, o pensamento que funciona em relação a ideias gerais, e o pensamento que examina a validade destas ideias gerais.

O pensamento que funciona em relação ao apego, a objectos e ideias derivadas da discriminação, separa a mente dos seus processos mentais e aceita as suas ideias como sendo reais e apega-se a elas. Chega-se assim a uma variedade de falsos julgamentos sobre multiplicidade, individualidade, valor, etc., e um forte apego toma lugar, o qual é perpetuado pela energia do hábito e assim a discriminação vai-se afirmando a ela mesma.
Estes processos mentais, dão origem a concepções gerais de calor, fluidez, mobilidade e solidez, como caracterizando os objectos de discriminação, enquanto a tenaz sustentação para estas ideias gerais, dá origem à proposição, à razão, à definição e ilustração, todos os quais conduzem às afirmações de conhecimento relativo e ao estabelecimento da confiança no nascimento, natureza própria, e um eu alma.

Por pensamento como uma função examinadora, significa o acto intelectual de examinar essas conclusões gerais sobre a sua validade, significação, e veracidade. Esta é a faculdade que conduz ao entendimento, conhecimento correcto e aponta o caminho à auto realização.”

Então Mahamati perguntou ao Santificado:
“Abençoado, imploramos-te que nos digas que relação da ego personalidade produz o sistema mental?”

O Santificado respondeu:
“Para explicar isso, primeiro é necessário falar da natureza própria, dos cinco agregados da avareza que compõem a personalidade, embora como mostrei, eles sejam vazios, não nascidos, e sem natureza própria. Estes cinco agregados de avareza são: forma, sensação, percepção, discriminação e consciência. Destes, a forma pertence ao que é feito dos assim chamados elementos primários, seja o que for que sejam. Os quatro agregados restantes são sem forma e não devem ser considerados como quatro, porque eles fundem se imperceptivelmente uns nos outros. São como o espaço que não pode ser quantificado; é só devido à imaginação que eles são discriminados e comparáveis ao espaço. Porque as coisas estão dotadas com a aparência de ser, sinais característicos, perceptibilidade, domicílio e trabalho, a pessoa pode dizer que elas nascem de causas que produzem efeitos, mas isto não pode ser dito destes quatro agregados intangíveis, porque eles são sem sinais e sem marcas. Estes quatro agregados mentais que compõem a personalidade, estão além do cálculo, além das quatro proposições, não se pode dizer que existam ou que não existam, mas juntos, eles constituem o que é conhecido como, a mente mortal . Eles são parecidos com Maya e a um sonho que são coisas, não obstante, como a mente mortal discriminatória, eles obstruem a auto realização da Sabedoria Nobre.
Mas é só pelo ignorante que são enumerados e que os considera como uma personalidade própria; o sábio não faz isso.
Esta discriminação dos cinco agregados que constitui a personalidade e que serve de base e fundamento a um ego alma e aos seus desejos e egoísmos, deve ser renunciada, e no seu lugar a verdade da não imagem e o isolamento devem ser estabelecidos.”

Então Mahamati disse ao Santificado:
“Abençoado imploramos-te que nos fales sobre a Mente Universal e a sua relação com o sistema mental inferior.”

O Santificado respondeu:
“As mentes sensoriais e a sua mente discriminativa, estão relacionadas com o mundo externo, que é uma manifestação de si mesmo e é dado a perceber, discriminar, e apegar-se às suas aparências, da mesma forma que Maya. A Mente Universal (Alaya Vijnana) transcende toda a individualização e limites. A Mente Universal é completamente pura na sua natureza essencial, conservando-se inalterada e livre de faltas de impermanência, imperturbável pelo egoísmo, livre de emoções, agitações ou tensões nervosas, distinções, desejos ou aversões.
A Mente Universal é como um grande oceano, a sua superfície é agitada por ondas e pelo aumento repentino destas, mas as suas profundezas permanecem sempre impassíveis. Em si mesma é destituída de personalidade e de tudo aquilo que a esta pertence, mas por causa da constante poluição, a sua face é como um actor que representa uma variedade de papeis entre os quais, uma mutua função toma lugar e o sistema mental nasce. O princípio do pensamento torna-se dividido e as funções mentais da mente, as más emanações da mente, assumem a individualidade. Os sete passos graduais da mente aparecem: isto é, auto realização intuitiva, pensamento desejo discriminativo, vista, ouvido, gosto, cheiro, tacto, e todas as suas interacções e reacções levam ao seu aumento.
A mente discriminativa é a causa das mentes sensoriais e é quem as mantém, quem com elas preserva o seu funcionamento como descrito e torna-se presa ao mundo dos objectos, e por onde através da sua energia do hábito a Mente Universal se conspurca. Assim a Mente Universal torna-se o armazém e o órgão centralizador de todos os produtos acumulados do processo do pensamento e da acção desde o tempo sem principio.
Entre a Mente Universal e a mente discriminativa individual está a mente intuitiva (manas) que é dependente da Mente Universal para as sua causas e manutenção, e na relação com ambas. Participa da universalidade da Mente Universal, compartilha a sua pureza, e como ela, está além da forma e dos momentos fugazes. É pela mente intuitiva que a má emanação emerge, é manifestado e é percebido.
Afortunadamente essa intuição não é momentânea, porque se o esclarecimento que vem da intuição fosse momentâneo, o sábio perderia a sua "sabedoria", coisa que não acontece. Mas a mente intuitiva entra em relações com o sistema mental, compartilha as suas experiências e reflecte-se nas suas atividades.
A mente intuitiva é una com a Mente Universal por causa da sua participação na Inteligência Transcendental (Arya jnana), e é una com o sistema mental pela sua compreensão do conhecimento diferenciado (Vijnana). A mente intuitiva não tem corpo próprio, nem qualquer sinal pela qual possa ser diferenciada. A Mente Universal é a sua causa e suporte, mas ela evoluí juntamente com a noção de um eu e o que a ele pertence, ao qual se agarra e no qual se reflecte. Pela mente intuitiva, pela faculdade de intuição, que é um entrosamento de identidade e percepção, a inconcebível sabedoria da Mente Universal é revelada e realizável.
Como a Mente Universal ela não pode ser a fonte do erro.
A mente discriminativa é uma dançarina e um mágico com a actualidade do mundo objectivo. A mente–intuitiva é a sábia boba da corte que viaja com o mágico e reflecte a sua vacuidade e fugacidade. A Mente Universal mantém o registro e sabe o que deve e o que pode ser. É por causa das actividades da mente discriminativa que o erro surge e o mundo objectivo evolui e o reino de um ego alma é estabelecido. Quando a mente discriminativa poder adquirir liberdade, todo o sistema mental deixará de funcionar e a Mente Universal permanecerá só. A aquisição de liberdade por parte da mente discriminativa, removerá a causa de todo o erro.”

Então Mahamati disse ao Santificado: “Abençoado, imploramos te que nos digas: qual é o significado da cessação do sistema mental?”
O Santificado respondeu:
“As cinco funções sensoriais e as suas funções discriminatórias e pensantes, surgem e terminam completamente, momento a momento. Elas nascem com a discriminação como causa, com forma, aparência e objectividade unidas intimamente como condição. O “viverei” é a mãe e a ignorância é o pai.
Determinando nomes, o desejo de posse da forma é multiplicado e assim a mente vai condicionar e mutuamente ser condicionada. Ficando fixa a nomes e formas, não percebendo que elas não têm nenhuma base, que são as atividades da própria mente, o erro e a falsa imaginação crescem, e o prazer e a dor surgem, e o caminho para a emancipação é bloqueado. O sistema inferior das mentes sensoriais e da mente discriminativa, realmente não sofrem prazer e ou dor elas somente imaginam isso. Prazer e dor são as reacções enganosas da mente mortal, como apego a um mundo objectivo imaginário.
Há duas formas pelas quais a interrupção do sistema mental pode acontecer: considerando a forma, e considerando a continuidade. Os órgãos dos sentidos funcionam considerando a forma pela interacção do contacto e apego; e eles deixam de funcionar quando este contacto se interromper.
Quanto à consideração da continuidade, quando estas interacções da forma, contacto e apego cessarem, não há mais continuidade do ver, ouvir e outras funções dos sentidos; com a interrupção destas funções dos sentidos, as discriminações, avidez e apegos da mente discriminativa cessam; e com o seu acto de interrupção, a acção e a sua energia do hábito cessam também, e não há mais acumulação de corrupção karmica na aparência da Mente Universal.
Se a evolução da mente mortal fosse da mesma natureza da Mente Universal, a cessação do sistema mental inferior significaria a cessação da Mente Universal, mas elas são diferentes da Mente Universal porque esta não é a causa da mente mortal.
Não há nenhuma cessação de Mente Universal na sua pura essência natureza. O que deixa de funcionar não é a Mente Universal na sua essência natureza, mas a cessação dos efeitos produtores das corrupções na sua superfície, causadas pela acumulação da energia do hábito das atividades da discriminação e pensamentos da mente mortal.
Não há cessação da Mente Divina que em si mesma, é o domicílio da Realidade e a Matriz da Verdade.
Por cessação das mentes sensoriais, significa, não a cessação das suas funções de percepção, mas a cessação das actividades discriminativas e da identificação que estão centralizadas na mente mortal discriminativa.
Por cessação do sistema mental completo, significa, a cessação da discriminação, a renuncia os vários apegos, e, então, a renuncia às corrupções da energia do hábito na face da Mente Universal que tem se acumulado desde os tempos sem começo, por causa destas discriminações, apegos, raciocínios erróneos, e os consequentes actos.
Pela cessação da continuação do aspecto do sistema mental chamada, a mente mortal discriminativa, o mundo inteiro de Maya e os desejos desaparecem ao libertarem-se da mente mortal discriminativa. Com a cessação da mente mortal, o mundo inteiro de Maya e o desejo desaparecem. Libertar-se da mente mortal discriminativa é o Nirvana.
Mas a cessação da mente discriminativa não poderá acontecer até haver uma "inversão" no lugar mais intimo da consciência. O hábito mental da mente discriminativa de olhar superficialmente o mundo objectivo externo, deve ser abandonado, e um novo hábito de perceber a Verdade dentro da mente intuitiva, tornando-a una com a Verdade em si mesma, deve ser estabelecido.
Até esta auto realização intuitiva de Sabedoria Nobre ser atingida, o sistema mental irá evoluindo. Mas quando o discernimento nos cinco Dharmas, nas três ego naturezas, e o não eu dualista for alcançado, então o caminho será aberto para esta "inversão" acontecer.
Com o fim do prazer e da dor, de ideias contraditórias, dos interesses egoístas perturbadores, será atingido um estado de tranquilidade, no qual serão entendidas as verdades completas da emancipação e não haverá nenhumas más emanações do sistema mental a interferir com a perfeita auto realização da Sabedoria Nobre.”

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Capítulo VI

A Inteligência Transcendental


Então Mahamati disse: “Abençoado, imploramos-te que nos digas, o que constitui a Inteligência Transcendental?”
O Santificado respondeu:
“A Inteligência Transcendental é o estado interno de auto realização da Sabedoria Nobre. É percebida de repente e intuitivamente como uma “inversão” que tem lugar no mais intimo da consciência; não entra nem sai, é como a lua vista na água. A Inteligência Transcendental não está sujeita ao nascimento nem à destruição; não tem nada que ver com a combinação ou a concordância; é destituída de apego e acumulação; transcende todos os conceitos de dualismo.
Quando a Inteligência Transcendental é considerada, quatro coisas devem ser mantidas em mente: palavras, significados, ensinamentos e a Sabedoria Nobre (Arya Prajna).
As palavras são empregues para expressar significados, mas elas são dependentes das discriminações e da memória como causa, e no emprego de sons ou letras pelas quais uma transferência mútua de significado é possível. Palavras são só símbolos e podem ou não podem clara e completamente expressar o significado pretendido e, além disso, podem ser entendidas palavras bastante diferentes das que eram planeadas pelo orador. As palavras não são diferentes nem não diferentes do significado e do significado que substitui a mesma relação para as palavras.
Se o significado é diferente das palavras, ele não pôde ser manifestado por meio de palavras; mas o significado é iluminado através das palavras como as coisas são através da luz. As palavras são como um homem que leva uma luz para localizar a sua propriedade pela qual ele pode dizer: esta é a minha propriedade.
Assim, por meio das palavras e do discurso originados na discriminação, o Bodhisattva pode entrar no significado dos ensinamentos dos Tathágatas e pelo significado ele pode entrar no estado exaltado da auto realização da Sabedoria Nobre que, em si mesma, é livre de palavras discriminativas. Mas se um homem está preso ao significado literal das palavras e se apega à ilusão de que as palavras estão em acordo, especialmente em tais coisas como o Nirvana que é não nascido e não morre, ou sobre as distinções dos Veículos, os cinco Dharmas e as três ego naturezas, ele então não entenderá o verdadeiro significado e será emaranhado em afirmações e refutações.
Exactamente como a variedade de objectos são vistos e discriminados em sonhos e em visões, assim são discriminadas as ideias e as declarações erroneamente, e o erro vai-se multiplicando.
O ignorante e o ingénuo declaram que o significado não é outra coisa que palavras e como são as palavras, assim é o significado.
Eles pensam que, como o significado não tem corpo próprio não pode ser diferente das palavras e, então, declaram ser o significado idêntico às palavras. Nisto, eles são ignorantes da natureza das palavras que estão sujeitas ao nascimento e morte, apesar do significado não ser; as palavras são dependentes das letras mas o significado não está; o significado, está fora de existência e não existência, não tem substrato, é não nascido. Os Tathágatas não ensinam um Dharma que é dependente de letras. Qualquer um que ensine uma doutrina que é dependente de letras e palavras é um mero palrador, porque a Verdade está além das letras, das palavras e dos livros.
Isto não significa que as letras e os livros nunca declarem o que está em conformidade com o significado e a verdade, mas significa que as palavras e os livros são dependentes das discriminações, enquanto o significando e a verdade não são; além disso, as palavras e os livros estão sujeitos às interpretações das mentes individuais, enquanto o significando e a verdade não estão.
Mas se a Verdade não fosse expressa em palavras e livros, as escrituras que contêm o significado da Verdade desapareceriam, e quando as escrituras desaparecerem não haverá mais discípulos, mestres, Bodhisattvas e Buddhas, e não haverá nada para ensinar.
Mas ninguém deve tornar-se prisioneiro das palavras das escrituras, porque até mesmo os textos canónicos, às vezes divergem no seu caminho inequívoco, devido ao funcionamento imperfeito das mentes sencientes.

Os discursos religiosos que são dados por mim e outros Tathágatas em resposta às variadas necessidades e fés de todos os géneros de seres, para os livrar da dependência da função do sistema-mental-pensamento, não são dados para tomarem o lugar da auto realização da Sabedoria Nobre. Quando há o reconhecimento, que não há nada no mundo, mas o que é visto pela própria mente, todas as discriminações de dualismo serão descartadas e a verdade sem imagens será entendida, e será vista como estando em conformidade com o significado, e não com as palavras e as letras.

O ignorante e o néscio que estão fascinados com as suas próprias imaginações e raciocínios erróneos, continuam dançando e saltando, mas são incapazes de entender o discurso através das palavras, sobre a verdade da auto realização, muito menos são eles capazes de entender a Verdade em si mesma. Agarrando-se ao mundo externo, eles agarram-se ao estudo de livros, que são só os meios, e não sabem averiguar a verdade da auto realização, que é a Verdade não minada pelas quatro proposições. A auto realização é um estado exaltado de realização interna que transcende todo o pensamento dualístico e que está alem do sistema mental com a sua lógica, argumentação, teorização, e ilustrações. Os Tathágatas persuadem o ignorante, e encorajam os Bodhisattvas porque eles procuram a auto realização da Sabedoria Nobre.

Então, deixemos que cada discípulo tome boa atenção, mas que não se prenda às palavras como estando em conformidade perfeita com o significado, porque a Verdade não está nas letras. Quando um homem com o seu dedo, aponta para alguma coisa ou alguém, o dedo pode ser confundido com a coisa apontada; da mesma maneira que as crianças, os ignorantes e os ingénuos, são incapazes, até mesmo, no dia das suas mortes, abandonar a ideia, de que o dedo que aponta as palavras é onde está o significado.
Eles não podem perceber a Realidade Última por causa das suas intenções em se apegarem às palavras, o qual era pretendido não ser mais que um dedo apontando. As palavras e a discriminação delas, ligam a pessoa ao círculo triste dos renascimentos no mundo do nascimento e morte; o significado mantêm-se só e é um guia para o Nirvana. O significado é alcançado por muita aprendizagem, e esta é obtida, tornando-se familiarizada com o significado e não com as palavras; então, deixemos que os investigadores da verdade reverentemente venham até aos que são sábios e evitem os defensores das palavras particulares.

Quanto aos ensinamentos: há monges e pregadores populares que são dados a rituais e a cerimónias e que são qualificados nos vários encantamentos e na arte da eloquência; eles não devem ser honrados, nem devemos reverenciar a sua presença, porque o que as pessoas ganham deles é excitação emocional e prazer mundano; não é o Dharma. Tais monges, pela sua manipulação inteligente de frases, palavras, vários raciocínios e encantamentos, sendo uns meros palradores como as crianças, até alguém reconhecer que não estão em total acordo com a verdade, nem em harmonia com o significado, só servem para despertar os sentimentos e as emoção, enquanto estupidificam as mente.
Como eles não entendem o significado de todas as coisas, eles só confundem as mentes dos ouvintes com as visões dualistas deles. Não entendendo, que não há nada mais que o que é visto pela mente, e apegados à noção de uma ego natureza das coisas externas, e incapazes de conhecer o seu próprio caminho, eles não têm nenhuma liberdade para oferecer aos outros. Assim, estes monges e pregadores populares, versados em vários encantamentos e qualificados na arte da eloquência, eles que nunca se emanciparam de tais calamidades como o nascimento, velhice, doença, tristeza, lamentação, dor e desespero, conduzem o ignorante na confusão, por meio das suas várias palavras, frases, exemplos, e conclusões.

Depois há os filósofos materialistas. Nenhum respeito nem reconhecimento ser-lhes-ão mostrados, porque os seus ensinamentos apesar de poderem ser explicados por centenas de milhares de palavras e frases, não vão além das preocupações deste mundo e deste corpo que no fim conduzem ao sofrimento. Como os materialistas não reconhecem nenhuma verdade como existindo por si mesma, eles dividem-se em várias escolas cada uma das quais se apega ao seu próprio modo de argumentar.
Mas há os que não pertencem ao materialismo e que não estão sujeitos ao conhecimento dos filósofos que se agarram a falsas discriminações e aos seus raciocínios erróneos, porque eles não vêem que, fundamentalmente, não há nenhuma realidade nos objectos externos.
Quando é reconhecido que não há nada, para além do que é visto pela própria mente, a discriminação de ser e não ser cessa e, assim não há um mundo externo de percepção de objectos, nada permanece, somente a Realidade.
Isto não pertence aos filósofos materialistas; é o domínio dos Tathágatas.

Se são imaginadas tais coisas como a vinda e ida do sistema mental, desaparecendo e aparecendo, solicitações, apegos, afectos intensos, uma hipótese filosófica, uma teoria, um lugar, um conceito sensorial, a atracção atómica, um organismo, o crescimento, a sede, essas coisas que pertencem ao materialismo, elas não são minhas. Isto são coisas, que são o objecto do interesse mundano, para serem sentidas, controladas e provadas; estas são as coisas que seduzem, aquelas que prendem ao mundo externo; estas são as coisas que aparecem nos elementos que compõem os agregados da personalidade, onde, devido à força reprodutora da luxúria, surgem todos os tipos de desastres, nascimentos, tristezas, lamentações, dores, desesperos, doenças, velhices, e mortes. Todas estas coisas dizem respeito aos interesses e prazeres mundanos; elas mentem, no percurso do caminho dos filósofos, que não é o caminho do dharma.
Quando o verdadeiro não ego das coisas e das pessoas é compreendido, a discriminação deixa de se afirmar; o sistema mental inferior deixa de funcionar; as várias fases do Bodhisattva são seguidas umas após outras; o Bodhisattva pode proferir os dez votos inesgotáveis e é ungido por todos os Buddhas. O Bodhisattva torna-se o mestre de si mesmo e de todas as coisas, em virtude de uma vida sem esforço espontânea e brilhante. Assim o Dharma, que é a Inteligência Transcendental, transcende todas as discriminações, todo o falso raciocínio, todos os sistemas filosóficos, e todo o dualismo.”

Então Mahamati disse ao Santificado:
“É feita menção nas Escrituras à Matriz envolvente do Tathágata e é ensinado que, o que nasce dela é por natureza luminoso e puro, originalmente imaculado e dotado com as trinta duas marcas da excelência. É descrito como uma pedra preciosa, embrulhada numa peça de vestuário, suja pela ganância, raiva, loucura e falsas imaginações. Somos instruídos de que esta natureza Búdica imanente em todo o mundo, é eterna, inalterável e auspiciosa. Não é isto que nasce da Matriz envolvente do Tathagata, o mesmo que a alma substância que é ensinado pelos filósofos? O Divino Atman como ensinado por eles também é reivindicado ser eterno, inescrutável, imutável, e imperecível. Há, ou não há uma diferença?”

O Santificado respondeu:
“Não, Mahamati, a minha Matriz que abrange a Perfeição, não é igual ao Divino Atman como é ensinado pelos filósofos. O que eu ensino é a Perfeição no sentido do Dharmakaya, a Última Unidade, o Nirvana, a vacuidade, o não nascido, o inqualificável, destituído de esforço. O motivo porque eu ensino a doutrina da Perfeição, é provocar o ignorante e o ingénuo, para que se afastem dos seus medos enquanto ouvem os ensinamentos do não ego e voltem ao estado de compreensão da não discriminação e sem imagens.
O ensino religioso dos Tathágatas é como o de um oleiro que faz vários recipientes com uma massa de barro, pela habilidade das suas próprias mãos, com a ajuda da vara, água, e cordel; assim os Tathágatas pelo seu comando de meios hábeis que emitem da Sabedoria Nobre, por várias condições, expressões, e símbolos, pregam os vários aspectos do não ego para remover o último rasto de discriminação que está impedindo os discípulos de atingir a auto realização da Sabedoria Nobre.

A doutrina da Matriz do Tathagata, é revelada, para despertar os filósofos que se apegam à noção de um Divino Atman, como personalidade transcendental, de forma que as suas mentes que foram presas à noção imaginária de "alma", como sendo algum ego existente, possam ser rapidamente despertas para o estado do esclarecimento perfeito.
Todas estas noções como causa e efeito, sucessão, átomos, elementos primários que compõem a personalidade e a alma pessoal, Espírito Supremo, Deus Soberano, Criador, é tudo invenções da imaginação e manifestações de mente.
Não, Mahamati, a doutrina do Tathagata, da Matiz da Perfeição não é igual ao Atman dos filósofos.

É dito que o Bodhisattva tem apreendido bem o ensinamento dos Tathágatas, quando, completamente só, num espaço não frequentado pelos outros, através da sua Inteligência Transcendental, percorre o caminho que conduz ao Nirvana. Nisto, a sua mente abrir-se-á, percebendo, pensando, meditando, e, não perecendo na prática da concentração, até que atinja a “inversão” da fonte da energia do hábito, ele conduzirá desde então, uma vida de excelentes acções. Com a mente concentrada no estado de Budidade, ele tornar-se-á completamente familiarizado com a verdade nobre da auto realização; ele tornar-se-á o mestre perfeito da sua própria mente; ele será como uma pedra preciosa que irradia muitas cores; ele poderá assumir corpos de transformação; ele poderá entrar nas mentes de todos e ajudá-los; e finalmente, ascendendo gradualmente em todas as fases, ele residirá na Inteligência Transcendental perfeita dos Tathágatas.

Não obstante, a Inteligência Transcendental (Arya jnana) não é a Sabedoria Nobre (Arya prajña) mesma, é somente uma consciência intuitiva dela. A Sabedoria Nobre é um estado perfeito sem imagens; é a Matriz das "coisas como elas são"; é a toda conservadora Mente Divina (Alaya Vijnana), que na sua pura Essência eternamente permanece em perfeita paciência e tranquilidade imperturbável.”

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Capítulo VII

A Auto Realização


Mahamati então disse: “Abençoado, diz nos, qual é a natureza da Auto Realização pela qual seremos capazes de alcançar a Inteligência Transcendental?”

O Abençoado respondeu:
“A Inteligência Transcendental, surge quando a mente intelectual alcança o seu limite e, se as coisas são para serem entendidas na sua verdadeira natureza e essência, os seus processos da actividade mental, que são baseados em ideias particularizadas, discriminatórias e juízos, devem ser transcendidas por um apelo a uma faculdade mais elevada da cognição, se é que existe uma tal elevada faculdade. Na faculdade da mente intuitiva (Manas), que como vimos é a ligação entre a mente intelectual e a Mente Universal, temos essa faculdade. Embora ela não seja um órgão individualizado como a mente intelectual, ela tem algo muito melhor; depende directamente da Mente Universal. Enquanto a intuição não dá a informação que pode ser analisada e discriminada, ela dá alguma coisa que é mais superior, a auto realização através da identificação. “

Mahamati então perguntou ao Abençoado, dizendo: “Por favor diz-nos, Abençoado, que compreensões claras um discípulo sério deve ter, para ser bem sucedido na disciplina que leva à auto realização?”

O Abençoado respondeu:
“Há quatro coisas pelas quais um discípulo sincero pode ganhar a auto realização da Sabedoria Nobre e passar a ser um Bodhisattva Mahasattva:
Primeiro, ele deve ter uma compreensão clara, que todas as coisas, são só manifestações da própria mente;
em segundo lugar, ele deve descartar a noção de nascimento, permanência e desaparecimento;
terceiro, ele deve entender claramente o não eu das coisas e das pessoas;
e quarto, ele deve ter uma verdadeira concepção do que constitui a auto realização da Sabedoria Nobre, com a condição de que, com estas quatro compreensões, os discípulos sérios podem ser Bodhisattvas e alcançar a Inteligência Transcendental.

Quanto ao primeiro; ele deve reconhecer e estar totalmente convencido, que este mundo triplo é apenas uma manifestação complexa das atividades mentais do próprio; que está destituído de individualidade e do que a ela pertence; que não há esforço, nenhuma chegada nem nenhuma partida. Ele deve reconhecer e aceitar o facto que este mundo triplo, é manifestado e imaginado como verdadeiro, somente debaixo da influência da energia do hábito, que foi acumulada desde o passado sem principio, pela memória, falsa imaginação, falso raciocínio, e apegos à multiplicidade dos objectos e reacções nas relações próximas e em conformidade com as ideias de corpo propriedade e residência.

Quanto ao segundo; ele deve reconhecer e estar convencido, que todas as coisas são para ser consideradas como formas vistas numa visão e num sonho, vazias de substância, não nascidas e sem natureza própria; que todas as coisas existem somente pelo motivo de uma complicada rede de causa e efeito, que deve o seu surgimento à discriminação e apego e que resulta no surgimento do sistema mental, possessões e desenvolvimentos.

Quanto ao terceiro; ele deve reconhecer e pacientemente aceitar o facto que a sua própria mente e personalidade, também são construídas pela mente, que é vazia de substância, não nascida e sem ego. Com estas três coisas, claramente em mente, o Bodhisattva será capaz de estabelecer a verdadeira não imagem.

Quanto ao quarto; ele deve ter um conceito verdadeiro do que constitui a auto realização da Sabedoria Nobre.
Primeiro, não é comparável com a percepção alcançada pela mente dos sentido, e nem é comparável com a cognição da discriminação e da mente intelectual. Ambas pressupõem uma diferença entre ego e não ego e o conhecimento assim alcançado é caracterizado pela individualidade e generalidade. A auto realização é baseada na identidade e unidade; não há nada para ser discriminado nem declarado acerca dela. Mas estabelece que o Bodhisattva deve estar livre de todas as pressuposições e apegos a coisas, a ideias e à própria identidade.”

Mahamati então disse ao Abençoado: “Abençoado, por favor diga-nos, acerca das características dos apegos profundos à existência, como podemos tornar-nos separados da existência?”

O Abençoado respondeu:
“Quando cada um tenta entender a significação das coisas por meio das palavras e discriminações, segue-se um imensurável numero de opiniões e convicções apegadas à existência. Por exemplo: há apegos profundos a sinais da individualidade, à causa e efeito, à noção de ser e não ser, à discriminação do nascimento e morte, da realização e da não realização, do hábito da própria discriminação da qual os filósofos dependem tanto.
Há três apegos que são especialmente profundos nas mentes de todos: a ganância, a raiva e a obsessão, que são baseados na luxúria, medo e orgulho. Estes são apoiados pela discriminação, mentiras e desejos, que são procriadoras e acompanhadas pela excitação, avareza, e o amor ao conforto e o desejo da vida eterna; a consequência, é uma sucessão de renascimentos nos cinco caminhos da existência e a continuação aos apegos. Mas se esses apegos forem interrompidos, nenhum sinal de apego nem de desapego permanecerá, porque eles são baseados em coisas que são não existentes; quando esta verdade é claramente entendida a rede do apego é limpa.

Mas dependendo da ligação à combinação tripla que trabalha em uníssono, há o surgimento e a continuação do sistema mental funcionando incessantemente, e que por causa dele, há a profunda convicção e a contínua afirmação da vontade de viver. Quando a combinação tripla que causa o funcionamento do sistema da mente deixa de existir, há emancipação tripla e não há apoio para o surgimento de qualquer outra combinação. Quando a existência e a inexistência do mundo externo são reconhecidas como surgindo da própria mente, então o Bodhisattva está preparado para estabelecer o estado sem imagens e nisto, ver a vacuidade que caracteriza toda a discriminação e todos os apegos profundos resultantes dele. Ali, ele não verá nenhum sinal enraizado de apego, nem de interesse nem desinteresse; ali ele não verá alguém na escravidão nem na emancipação, esperará por aqueles, que eles mesmos têm prazer na escravidão e na emancipação, porque em todas as coisas não há "substância" a que se possa apegar.
Mas enquanto estas discriminações forem estimadas pelo ignorante e o ingénuo, eles continuarão ligados a si mesmos como os bichos da seda, desfiando os seus fios de discriminações e envolvendo-se a si mesmos e aos outros, e estarão encantados com a sua prisão. Mas para o sábio não há sinais de apego nem de desapego; todas as coisas são vistas como permanecendo num lugar solitário, onde não há nenhum desenvolvimento de discriminação.

Mahamati, tu e todos os Bodhisattvas devem permanecer de forma a poderem ver todas as coisas do ponto de vista da solidão.
Mahamati, quando tu e os outros Bodhisattvas entenderem bem, a distinção entre apego e desapego, vocês estarão na posse dos meios hábeis para evitarem ficar atados às palavras segundo as quais possam agarrar-se a significados. Livres da dominação das palavras vocês serão capazes de estabelecer onde haverá uma “inversão" no lugar mais profundo da consciência por meio da qual alcançarão a auto realização da Sabedoria Nobre e serão capazes de entrar em todas as assembleias e terras Buda.
Lá serão selados com o selo dos poderes, do auto domínio, das faculdades psíquicas, e dotados da sabedoria e do poder dos dez inexauríveis votos, e ficarão radiantes nos raios variegados dos Corpos de Transformação.
Com isto vocês brilharão sem esforço como a lua, o sol, a jóia de desejo mágica, e em cada etapa verão coisas como sendo a unidade perfeita em si mesma, não contaminadas por qualquer auto consciência.
Vendo que todas as coisas se parecem com um sonho, serão capaz de entrar no estágio do Tathágatas sedo capazes de entregar os discursos no Dharma ao mundo dos seres, conforme as suas necessidades e serão capazes de libertá-los de todas as noções dualísticas e discriminações falsas.

Mahamati, há duas formas de considerar a auto realização, a saber; os ensinamentos acerca dela, e a realização em si mesma. Os diversos ensinamentos dados nas nove divisões dos trabalhos doutrinais, para as instruções daqueles que estão inclinados a segui-los, fazendo uso de expedientes e meios hábeis, são destinados, a despertar em todos os seres uma percepção verdadeira do Dharma. Os ensinamentos são projectados para manter afastadas todas as noções dualísticas de ser e não ser, unidade e diversidade.
A realização em si mesma está dentro da consciência interior. Ela é uma experiência interior que não tem nenhuma ligação com o sistema mental inferior e as suas discriminações de palavras, ideias e especulações filosóficas. Ela brilha com a sua própria luz clara para revelar o erro e a loucura dos ensinamentos construídos pela mente, tornar impotentes as influências maléficas vindas do exterior, e guiar-nos infalivelmente ao reino das boas não emanações.
Mahamati, quando o discípulo sério e o Bodhisattva estão aprovisionados destas exigências, o caminho está aberto à obtenção perfeita da auto realização da Sabedoria Nobre, e a receber o prazer máximo dos frutos que surgem daí.

Então Mahamati perguntou ao Abençoado, dizendo: “Por favor diz-nos, qual o Veículo que caracteriza a obtenção da auto realização interior da Sabedoria Nobre?”

O Abençoado respondeu:
“Para descartar mais facilmente as discriminações e os raciocínios erróneos, o Bodhisattva deve retirar-se sozinho para um lugar tranquilo e isolado, onde ele possa reflectir interiormente, sem confiar em mais alguém, e ali exercitar-se para executar os sucessivos desenvolvimentos ao longo das etapas; esta solidão é a característica da obtenção interior da auto realização da Sabedoria Nobre.
Chamo a isto o Veículo Único, não porque ele seja o Veículo Único, mas porque é só na solidão que cada um é capaz de reconhecer e perceber o caminho do Veículo Único. Enquanto a mente estiver distraída e fazendo um esforço consciente, não pode haver nenhuma acção conclusiva quanto aos vários veículos; é só quando a mente está sozinha e tranquila, que é capaz de renunciar às discriminações do mundo externo e procurar a realização de um reino interior, onde não há nem veículo, nem aquele que se faz transportar nele.
Falo dos três veículos para guiar o ignorante. Não falo demasiado acerca do Veículo Único, porque não há nenhum caminho pelo qual os discípulos sérios e os mestres, possam entender o Nirvana, sem ajuda. Segundo os discursos dos Tathágatas, os discípulos sinceros devem estar isolados, ser disciplinados, e treinados na meditação Dhyana, tendo como resultado que serão ajudados por muitos dispositivos e expedientes, para entenderem a emancipação.
É por os discípulos sérios e os mestres não terem destruído totalmente a energia do hábito do carma e as obstruções do conhecimento discriminativo e da paixão humana, que eles são muitas vezes incapazes de aceitar o não ego dualístico e a incompreensível transformação da morte, que prego o veículo triplo e não o Veículo Único.
Quando os discípulos sérios se livrarem de toda a sua má energia do hábito e forem capazes de entender o não ego dualístico, então eles não serão intoxicados pela felicidade do Samádhis e despertarão no reino das boas não emanações. Sendo despertados no reino das boas não emanações, eles serão capazes de reunir todos os requisitos da obtenção da Sabedoria Nobre, que está além do conceito e pertence ao poder soberano.
Mas realmente, Mahamati, não há Veículos, e assim eu falo do Veículo Único.
Mahamati, o total reconhecimento do Veículo Único nunca foi alcançado por discípulos sérios, mestres, ou até pelo grande Brahma; foi alcançado só pelos próprios Tathágatas. Esta é a razão por que é conhecido como Veículo Único. Não falo muito dele porque não há nenhum caminho, pelo qual os discípulos sérios possam entender o Nirvana sem serem ajudados. “

Então Mahamati perguntou ao Abençoado, dizendo: “Quais são os passos que conduzirão um discípulo desperto, em direcção à auto realização da Sabedoria Nobre?”

O Abençoado respondeu:
O início, parte do reconhecimento que o mundo externo é só uma manifestação das actividades da própria mente, e que a mente agarra-se ao mundo externo simplesmente por causa do seu hábito de discriminação e raciocínio falso.
O discípulo deve adoptar o costume de ver as coisas com realidade .
Ele deve reconhecer o facto de que o mundo não tem nenhuma natureza própria, que é não nascido, que ele se parece com uma nuvem que passa, como uma roda imaginária, feita por um tição giratório, como o castelo de Gandharvas, como a lua reflectida no oceano, como uma visão, uma miragem, um sonho.
Ele deve envolver-se no entendimento de que a mente na sua natureza essencial não tem nada que ver com a discriminação nem com a causa efeito; ele não deve escutar discursos baseados em termos e qualificações imaginárias; ele deve entender que a Mente Universal na sua essência pura é um estado sem imagens, e que, é só por causa das contaminações acumuladas na sua superfície, que o corpo-propriedade-residência parece ser as suas manifestações, que na sua própria natureza pura, não é afectada e não é estimulada por tais modificações como surgimento, permanência e destruição; ele deve entender totalmente, que todas essas coisas vêm com o despertar da noção de uma alma, de um ego e a da sua mente consciente.

Por isso, Mahamati, deixe aqueles discípulos que desejam realizar a Sabedoria Nobre seguir o Veículo Tathágata desistir de toda a discriminação e raciocínio erróneo sobre tais noções, como os elementos que compõem os agregados da personalidade e o seu mundo dos sentidos ou sobre tais ideias como causa e efeito, o surgimento a permanência, a destruição, e exercitarem-se na disciplina de Dhyana que leva à realização da Sabedoria Nobre.
Para praticar Dhyana, o discípulo sério deve retirar-se para um lugar tranquilo e solitário, lembrando-se que os hábitos da longa vida do pensamento discriminativo, não podem ser, nem fácil, nem rapidamente interrompidos.

Há quatro espécies de meditação de concentração (Dhyana):
a Dhyana praticada pelo ignorante;
a Dhyana dedicada ao exame do significado;
a Dhyana com a "Qualidade/Essencial – as coisas como elas são" (Tathata) pelo seu objecto;
e a Dhyana dos Tathágatas.

A Dhyana praticada pelo ignorante, é aquele que é utilizado pelos que seguem o exemplo dos discípulos e mestres, mas que não entendem o seu objectivo e, por isso, ficam "estaticamente sentados" com as mentes vazias.
Este Dhyana é praticada, também, por aqueles que, desprezando o corpo, o vêem como uma sombra e um esqueleto, cheio de sofrimentos e impurezas, que aderem à noção de um ego e que procuram alcançar a emancipação pela mera cessação do pensamento.

A Dhyana dedicada ao exame do significado, é o praticado por aqueles que, percebendo a não sustentabilidade de ideias tais como, eu, outro e ambos, que são mantidos pelos filósofos, e que passaram além do não eu dualista, dedicam a Dhyana ao exame do significado do não eu e às diferenciações das etapas dos Bodhisattvas.

A Dhyana com Tathata, ou "Qualidade/Essencial", ou Unidade, ou Nome Divino, pelo seu objecto, é praticado por aqueles discípulos sérios e mestres que, reconhecendo completamente o não ego dualista e a sem imagem do Tathata, ainda aderem à noção de um Tathata último.

A Dhyana dos Tathágatas é a Dhyana daqueles que estão entrando na etapa do Tathágata Perfeito e que, permanecendo na felicidade tripla, que caracteriza a auto realização da Sabedoria Nobre, estão-se dedicando, por causa de todos os seres, à realização de trabalhos incompreensíveis à sua emancipação.
Isto é a Dhyana pura dos Tathágatas. Quando todas as coisas menores e as ideias são transcendidas e esquecidas, e lá permanece somente um estado perfeito, sem imagens onde o Tathágata e o Tathata são fundidos na Unidade perfeita, então os Buddhas virão em conjunto de todas as suas terras Buda e com mãos brilhantes que pousarão na sua testa darão as boas vindas ao novo Tathágata. "

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Capítulo VIII

A Obtenção da Auto Realização


Mahamati então disse ao Abençoado: “Pedimos-te que nos fales mais, acerca do que constitui o estado da auto realização.”

O Abençoado respondeu:
“Na vida de um discípulo sério há dois aspectos que devem ser distinguidos, a saber: o estado do apego à auto compreensão que resulta da sua discriminação e o seu campo da consciência com o qual ele está relacionado, e segundo; o estado excelente e exaltado da auto compreensão da Sabedoria Nobre.
O estado de apego às discriminações da auto compreensão das coisas, ideias, e egoísmo, é acompanhado por emoções de prazer ou aversão segundo a experiência ou como estabelecido nos livros da lógica. Conformando-se ele mesmo com o não ego das coisas e retendo pontos de vista incorrectos quanto ao seu próprio não eu, ele deve abandonar esses pensamentos e manter-se firme na continua ascensão das etapas.

O estado exaltado da auto compreensão tal como ele se relaciona com um verdadeiro discípulo, é um estado de concentração mental na qual ele procura identificar-se com a Sabedoria Nobre. Nesse estado de concentração ele deve procurar aniquilar todos os pensamentos vagabundos e noções pertencentes à exterioridade das coisas, e todas as ideias de individualidade e generalidade, de sofrimento e impermanência, e cultivar as ideias nobres de não ego, vacuidade e não imagens; assim ele alcançará a realização da verdade que é livre de paixão e está sempre serena. Quando este esforço activo na concentração mental é próspero, segue-se um estado mais passivo, receptivo de Samádhi, no qual o verdadeiro discípulo entrará no domicilio feliz da Sabedoria Nobre e experimentará a culminação nas transformações do Samapatti. Isto é a primeira experiência de um discípulo verdadeiro no estado exaltado da realização, mas até aqui, ainda não há nenhum abandono da energia do hábito nem fuga da transformação da morte.

Tendo alcançado este estado exaltado e feliz da realização, até onde pode ser alcançado por discípulos, o Bodhisattva não deve dar-se a si mesmo, ao prazer
da felicidade, já que isto significaria a cessação, mas deve pensar compassivamente nos outros seres e manter a vitalidade e energia dos seus votos originais; ele nunca deve permitir-se descansar nem empenhar-se em manter a felicidade do Samádhi.

Mas, Mahamati, como os discípulos verdadeiros continuam tentando avançar no caminho que leva à realização total, há um perigo contra o qual eles devem estar de guarda. Os discípulos podem não reconhecer que o sistema mental, por causa da sua energia do hábito acumulada, continua a funcionar, mais ou menos inconscientemente, enquanto eles vivem.
Eles podem às vezes pensar, que podem apressar a obtenção do seu objectivo de tranquilidade, suprimindo inteiramente as atividades do sistema mental. Isto é um erro, porque mesmo que as atividades da mente sejam suprimidas, a mente ainda continuará a funcionar, porque as sementes da energia do hábito continuam a permanecer nela.
O que eles pensam que é a extinção da mente, é realmente o não funcionamento do mundo externo da mente, ao qual eles não estão mais apegados. Isto é, o objectivo da tranquilização deve ser obtido, não suprimindo toda a actividade da mente mas livrando-se das discriminações e apegos.

Subsequentemente há outros que, receosos dos sofrimento ocasionados pelas discriminações da vida e da morte, imprudentemente buscam o Nirvana. Eles chegaram à conclusão que todas as coisas sujeitas à discriminação não têm nenhuma realidade e assim imaginam que o Nirvana deve consistir na aniquilação dos sentidos e dos seus domínios das sensações; eles não compreendem que o nascimento, a morte e o Nirvana não estão separados uns dos outros.
Eles não sabem que o Nirvana é a Mente Universal na sua pureza. Por isso, esses estúpidos que aderem à noção, de que o Nirvana é um mundo por si mesmo, que está fora do que é visto pela mente, ignorando todos os ensinamentos dos Tathágatas acerca do mundo externo, continuam rodando ao longo da roda do nascimento e morte.
Mas quando eles experimentarem a "inversão" na sua consciência mais profunda, que trará com ela a perfeita auto realização da Sabedoria Nobre, então eles entenderão.

O verdadeiro funcionamento da mente é muito subtil e difícil de ser entendido pelos novos discípulos, e até os mestres com todos os seus poderes do conhecimento correcto e Samádhis, muitas vezes encontram dificuldades de entendimento.
Somente os Tathágatas e os Bodhisattvas que estão firmemente estabilizados no sétima estágio, são os que podem entender totalmente como ela trabalha. Aqueles discípulos verdadeiros e os mestres que desejam entender totalmente todos os aspectos das etapas diferentes do Bodhisattva Perfeito pela ajuda do seu conhecimento correcto, devem tornar-se completamente convencidos de que os objectos de discriminação, só são vistos, como parecem, pela mente e, assim, manterem-se afastados de todas as discriminações e falsos raciocínios, que estão também na própria mente, procurando ver sempre as coisas verdadeiramente (yathabhutam), e plantando as raízes da bondade em terras Buda que não conhecem nenhum limite cometido por diferenciações.

Para fazer tudo isso, o Bodhisattva deve manter-se longe de todos os tumultos, excitações sociais e sonolência; deixemos que se mantenha fora dos tratados e das escritas dos filósofos mundanos, do ritual e das cerimónias do poder sacerdotal profissional. Deixemo-lo retirar-se para um lugar isolado na floresta, e lá dedicar-se à prática das várias disciplinas espirituais, porque, só assim fazendo ele será capaz de obter neste mundo de multiplicidades, um discernimento verdadeiro no trabalho da Mente Universal, na sua Essência.
Ali, rodeado dos seus bons amigos, os Buddhas, os discípulos verdadeiros ficarão capazes de entender o significado do sistema mental e o seu lugar como agente mediador, entre o mundo externo e a Mente Universal, e será capaz de cruzar o oceano do nascimento e morte, que surge da ignorância, desejo e acção.

Tendo ganho uma compreensão completa do sistema mental, as três naturezas próprias do não ego dualista, e obtido em si mesmo, na medida da sua realização própria que vai com aquela obtenção, todos os quais podem ser ganhos pelo seu conhecimento correcto, o caminho será claro para o novo avanço do Bodhisattva ao longo das etapas do Bodhisattva Perfeito. O discípulo deve então abandonar a compreensão da mente, que ele obteve pelo conhecimento correcto, e que em comparação com a Sabedoria Nobre parece-se com um burro coxo, e entrar na oitava etapa do Bodhisattva Perfeito, ele deve então disciplinar-se na Sabedoria Nobre segundo os seus três aspectos.

Esses aspectos são:
Primeiro, a não imagem, que vem quando todas as coisas que pertencem ao discipulado, mestrado e filosofia, são completamente dominadas.
Em segundo lugar, o poder acrescentado por todos os Buddhas derivado dos seus votos originais incluindo a identificação das suas vidas e a repartição dos seus méritos com todas as vidas sensíveis.
Terceiro, a auto realização perfeita, que até aqui, só foi entendida na medida em que o Bodhisattva tem sucesso em separar-se por si mesmo de examinar todas as coisas, incluindo o seu próprio imaginado não ego, na sua fenomenalidade, e perceber os estados de Samádhi e Samapatti pelo qual ele inspecciona o mundo como uma visão e um sonho, e ser admitido por todos os Buddhas, ele será capaz de passar à completa obtenção da etapa do Tathágata, que é a própria Sabedoria Nobre. Isto é a triplicidade da vida nobre e estando equipado com esta triplicidade, a auto realização perfeita da Sabedoria Nobre foi alcançada.”

Então Mahamati perguntou ao Abençoado, dizendo: “Abençoado, a purificação, das más emanações da mente, que aderem às noções de um mundo objectivo e a uma alma empírica, é gradual ou instantânea?”

O Abençoado respondeu:
“Há três fluxos característicos da mente, a saber; a das más emanações que surgem do desejo, avidez e apego; a das más emanações que resulta das ilusões da mente e das obsessões do egoísmo; e a das boas não emanações que resultam da Sabedoria Nobre.

As más emanações que reconhecem um mundo externo, que na realidade é só uma manifestação da mente, e que ficam presas a elas, são gradualmente e não instantaneamente purificadas. O bom comportamento só pode vir pelo caminho da restrição e do esforço. É como o oleiro que faz potes, que são feitos gradualmente com atenção e esforço. É parecido com o domínio da comédia, dança, canto, tocador de alaúde, escrita, e qualquer outra arte; deve ser adquirido gradual e laboriosamente. A sua recompensa será um discernimento claro, da vacuidade e da transição de todas as coisas.

As más emanações que resultam das ilusões da mente e das obsessões do egoísmo, dizem directamente respeito à vida mental e são coisas tais como, medo, raiva, ódio e orgulho; esses são purificados pelo estudo e meditação e, também, deve ser alcançado gradualmente e não instantaneamente. É parecido com o fruto ‘amra’ que amadurece lentamente; é parecido com o pasto, arbustos, ervas e árvores que crescem da terra gradualmente.
Cada um deve seguir o caminho de estudo e meditação por si mesmo, gradualmente e com esforço, mas por causa dos votos originais dos Bodhisattvas e de todos os Tathágatas que dedicaram os seus méritos, e identificaram as suas vidas com toda a vida animada, todos podem ser emancipados, eles não estão sem ajuda nem encorajamento; mas até com a ajuda dos Tathágatas, a purificação das más emanações da mente, é no melhor dos casos, lenta e gradual, necessitando tanto de zelo como de paciência.
A sua recompensa é a compreensão gradual do não eu dualista, da sua aceitação paciente, e dos pés bem assentes nas etapas do Bodhisattva Perfeito.

Mas as boas não emanações, associados à auto realização da Sabedoria Nobre, são uma purificação que vem instantaneamente pela graça dos Tathágatas. É parecido com um espelho que reflecte todas as formas e imagens instantaneamente e sem discriminação; é parecido com o sol ou a lua que revela todas as formas instantaneamente e ilumina-os imparcialmente com a sua luz.
Do mesmo modo, os Tathágatas conduzem os discípulos verdadeiros a um estado de não imagens; todas as acumulações de energia do hábito e carma, que se tinham estado a reunir desde os tempos sem princípio por causa do apego e pontos de vista erróneos que foram ocupados com uma alma ego e o seu mundo externo, são limpas, revelando instantaneamente o reino da Inteligência Transcendental que pertence à Budidade.
Assim como a Mente Universal, contaminada pelas acumulações da energia do hábito e do carma, revela as multiplicidades dos ego almas e dos seus mundos externos de falsas imaginações, assim também a Mente Universal limpa das suas corrupções, através da gradual purificação das más emanações, que vem pelo esforço, estudo e meditação, e pela gradual auto realização da Sabedoria Nobre, no final, como o Dharmata Buda que brilha espontaneamente, com os raios que são emitidos da sua Auto natureza pura, brilha instantaneamente.
Por ela a mentalidade de todos os Bodhisattvas é amadurecida instantaneamente: eles encontram-se nas residências palacianas dos céus Akanishtha, irradiando de si próprios, espontaneamente ,vários tesouros da sua abundância espiritual. "



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Capítulo IX

O Fruto da Auto Realização


Mahamati perguntou ao Abençoado:
“Imploramos-te que nos digas, qual é o fruto que vem com a auto realização da Sabedoria Nobre?”

O Abençoado respondeu:
“Primeiro, virá um discernimento de compensação da substância e significado das coisas e depois disto, virá um discernimento que se abre na significação dos ideais espirituais (Paramitas) pelo qual os Bodhisattvas serão capazes de entrar mais profundamente na permanência da não imagem e serão capazes de experimentar os mais altos Samádhis e gradualmente passar pelas mais altas etapas do Bodhisattva Perfeito.
Depois de experimentar a "inversão" no lugar mais profundo da consciência, eles experimentarão outros Samádhis até ao mais alto, o Vajravimbopama, que pertence aos Tathágatas e às suas transformações. Eles serão capazes de entrar no reino da consciência que está além da consciência do sistema mental, até mesmo na consciência do Tathágata Perfeito. Eles ficarão dotados de todos os poderes, faculdades psíquicas, auto domínio, compaixão amorosa, meios hábeis, e capacidade de fazer parte de outras terras Buda. Antes de terem alcançado a auto realização da Sabedoria Nobre, tinham estado sob o efeito dos interesses próprios do egoísmo, mas depois de alcançarem a auto realização eles mesmos encontrarão reacção espontaneamente aos impulsos de um coração grande e compassivo, dotado dos meios hábeis e ilimitados, sincera e inteiramente dedicados à emancipação de todos os seres.”

Mahamati disse: “Abençoado, fala-nos do poder de sustentação dado pelos Tathágatas pelo qual os Bodhisattvas são ajudados, para alcançar a auto realização da Sabedoria Nobre?”

O Abençoado respondeu:
“Há duas espécies de poder sustentador, que emanam dos Tathágatas e estão ao serviço dos Bodhisattvas, sustentação pelo qual os Bodhisattvas devem prostrar-se na presença deles e mostrar o seu apreço fazendo perguntas.
A primeira espécie de poder sustentador é a própria adoração do Bodhisattva e a fé nos Buddhas, pelo qual os Buddhas são capazes de se manifestar, dar a sua ajuda e ordená-los com as suas próprias mãos.
A segunda espécie de poder sustentador é o poder que irradia dos Tathágatas que permite aos Bodhisattvas alcançar e passar por vários Samádhis e Samapattis sem ficarem intoxicados pela sua felicidade.
Sendo sustentado pelo poder dos Buddhas, o Bodhisattva, até na primeira etapa, será capaz de alcançar o Samádhi conhecido como a Luz de Mahayana.
Neste Samádhi, os Bodhisattvas tornam-se conscientes da presença dos Tathágatas, vindos de todas as suas diferentes residências das dez regiões para comunicar aos Bodhisattvas o seu poder sustentado nas várias formas.
Como o Bodhisattva Vajragarbha foi sustentado nos seus Samádhis e como muitos outros Bodhisattvas de grau e virtude semelhantes têm sido sustentados, assim todos os verdadeiros discípulos, mestres e Bodhisattvas, podem experimentar este poder sustentado dos Buddhas nos seus Samádhis e Samapattis.
A fé do discípulo e o mérito dos Tathágatas são dois aspectos do mesmo poder de sustentação e, por isso, sozinhos, são os Bodhisattvas capazes de se tornarem um tendo a companhia do Buddhas.

Quaisquer Samádhis, faculdades psíquicas e ensinamentos são conhecidos pelos Bodhisattvas, eles são possíveis só pelo poder de sustentação dos Buddhas; se fosse de outra maneira, o ignorante e o idiota poderiam alcançar o mesmo resultado. Onde quer que os Tathágatas entrem com o seu poder de sustentação haverá música, não só a música feita pelos lábios humanos e tocada pelo ser humano através dos vários instrumentos, mas haverá música entre a erva, os arbustos e as árvores, nas montanhas, cidades, palácios e casebres; muito mais, estará a música no coração dos dotados de sentidos. O surdo, o mudo e o cego serão curados das suas deficiências e alegrar-se-ão na sua emancipação. Tal é a virtude extraordinária do poder de sustentação comunicado pelos Tathágatas.

Pela doação deste poder de apoio, os Bodhisattvas são capazes de evitar a maldade, a paixão, ódio e carma, da escravização; eles são capazes de transcender a Dhyana dos principiantes e avançar além da experiência e verdade já alcançada; eles são capazes de demonstrar o Paramitas; e finalmente, alcançar a etapa do Tathágata Perfeito. Mahamati, se não fosse este poder de sustentação, eles recairiam nos caminhos e nos pensamentos dos filósofos, nos discípulos de caminhos fáceis, e de más intenções, e ficariam assim frustrados da mais elevada realização.
Por essas razões, os verdadeiros discípulos e os Bodhisattvas sinceros são sustentados pelo poder de todos os Tathágatas.”

Mahamati então disse: “Foi dito pelo Abençoado que cumprindo as seis Paramitas, a Budidade é entendida. Por favor diz-nos o que são as Paramitas, e como elas devem ser executadas?”

O Abençoado respondeu:
“As Paramitas são ideais da perfeição espiritual que devem ser as guias dos Bodhisattvas no caminho para a auto realização. Há seis delas, mas devem ser consideradas de três formas diferentes, segundo o progresso do Bodhisattva, nas etapas. No início elas devem ser consideradas como ideais da vida mundana; depois como ideais da vida mental; e, por fim, como ideais da vida espiritual e una.
Na vida mundana onde cada um ainda está tenazmente agarrado às noções de uma alma ego e o que a ela concerne e se apega às discriminações do dualismo, somente para benefícios mundanos, se deve cultivar os ideais de caridade, bom comportamento, paciência, zelo, meditação e sabedoria. Mesmo na vida mundana a prática dessas virtudes trará recompensas de felicidade e êxito.
Consideravelmente, no mundo da mente dos verdadeiros discípulos e mestres, a sua prática, fará trazer alegrias de emancipação, iluminação e paz da mente, porque as Paramitas são baseadas no conhecimento correcto e conduzem a pensamentos do Nirvana, mesmo se o Nirvana dos seus pensamentos forem para eles.
No mundo da mente, as Paramitas tornam-se mais ideais e mais compreensivas; a caridade não pode ser mais expressa na oferta de presentes impessoais, mas pedirá os presentes mais caros de compaixão e da compreensão; o bom comportamento pedirá algo mais do que a conformidade externa dos cinco preceitos, porque à luz das Paramitas eles devem praticar a humildade, a simplicidade, a restrição e o desinteresse. A paciência pedirá algo mais do que a paciência para com as circunstâncias externas e os temperamentos de outras pessoas: ela pedirá agora, a paciência com alguém mesmo. O entusiasmo pedirá algo mais do que a dedicação e a demonstração externa da seriedade: ela pedirá mais auto controle na tarefa de seguir o Caminho Nobre e na manifestação do Dharma na própria vida de alguém. A meditação dará lugar a uma atenção mais cuidadosa, em que os significados discriminados, as deduções lógicas e as racionalizações, darão lugar às intuições de significado e espírito.
A Paramita da Sabedoria (Prajna) não será mais considerada sabedoria pragmática e erudição, mas irá revelar-se na sua verdadeira perfeição de Toda Verdade, que é o Amor.
O terceiro aspecto das Paramitas, vistas como a perfeição ideal dos Tathágatas, só podem ser totalmente entendidas pelos Bodhisattva Mahasattvas que são dedicados à disciplina espiritual superior e compreenderam completamente que não há nada para ser visto no mundo, excepto o que emana da própria mente; naquelas mentes a discriminação das dualidades deixou de funcionar; e o apego e a adesão tornam-se não existentes.
Assim, livre de todos os apegos a objectos individuais e a ideias, as suas mentes são livres de considerar formas de beneficiar e dar a felicidade aos outros, e até a todos os seres sencientes.
Aos Bodhisattva Mahasattvas o ideal da caridade é demonstrado na concessão da esperança do Nirvana dos Tathágata's, para que todos possam usufrui-lo em conjunto.
Tendo relações com um mundo objectivo não há o surgir nas mentes dos Tathágatas, discriminações entre os interesses do próprio e os interesses dos outros, entre bom e mau, há somente a espontaneidade e a realidade sem esforço do comportamento perfeito.
Praticar a paciência com o total conhecimento destas coisas, o apego e o desejo de aquisição, mas sem pensamentos de discriminação nem de apego, esta é a Paramita da Paciência dos Tathágatas.
Esforçar-se com a energia da primeira parte da noite até ao fim, conforme as medidas disciplinares, sem o surgimento da discriminação quanto a conforto ou desconforto, é a Paramita do Fervor dos Tathágatas.
Não discriminar entre si e os outros em pensamentos do Nirvana, mas manter a mente concentrada no Nirvana, é a Paramita da Atenção Plena.
Quanto ao Prajna Paramita, que é a Sabedoria Nobre, quem pode declará-lo?
Quando em Samádhi a mente deixa de discriminar e há somente a não imagem perfeita cheia de amor, então uma inescrutável "inversão" terá lugar na consciência íntima e cada um terá alcançado a auto realização da Sabedoria Nobre que é o supremo Prajna Paramita.”

Então Mahamati disse ao Abençoado: “Tu falas-te de um corpo astral, "corpo visão mente" (manomayakaya) que os Bodhisattvas são capazes de assumir, como sendo um dos frutos da auto realização da Sabedoria Nobre: imploramos-te que nos digas, Abençoado, qual é o significado de tal corpo transcendental?”

O Abençoado respondeu:
“Há três espécies de tais corpos transcendentais:
Primeiro, há aquele no qual o Bodhisattva alcança o gozo dos Samádhis e Samapattis.
Em segundo lugar, há aquele, que é assumido pelos Tathágatas, segundo a classe de seres a ser sustentados, e que alcança e aperfeiçoa espontaneamente com o não apego e o não esforço.
Terceiro, há aquele no qual os Tathágatas recebem a sua intuição de Dharmakaya.

A personalidade transcendental que faz parte do prazer dos Samádhis vem com as terceiras, quartas e quintas etapas, quando as atividades mentais do sistema mental ficam calmas e as ondas da consciência não são mais agitadas na superfície da Mente Universal. Neste estado, a mente consciente é ainda consciente, em parte, da felicidade que é experimentada por esta cessação das atividades da mente.

A segunda espécie da personalidade transcendental é a espécie assumida pelos Bodhisattvas e Tathágatas como corpos da transformação pela qual eles demonstram os seus votos originais no trabalho de realização e aperfeiçoamento; vem com a oitava etapa do Bodhisattva Perfeito.
Quando o Bodhisattva tem um entendimento eficaz da natureza das coisas, semelhante a Maia e entende o dharma da não imagem, ele experimentará a "inversão" na sua consciência mais profunda e tornar-se-á capaz de experimentar o Samádhis superior ou até o supremo.
Ao entrar nestes magníficos Samádhis ele alcança uma personalidade que transcende a mente consciente, pelo qual ele obtém poderes sobrenaturais de auto domínio e actividades, pelas quais ele é capaz de se mover como deseja, tão rapidamente como num sonho, e modifica-se tão rapidamente, como uma imagem se modifica num espelho.
Este corpo transcendental não é um produto dos elementos e no entanto, há algo nele que é análogo ao que é assim produzido; está apetrechado de todas as diferenças que pertencem ao mundo da forma, mas sem as suas limitações; possuído desse "corpo visão mente" ele é capaz de estar presente em todas as assembleias, de todas as terras Buda. Tal como o seu movimento de pensamentos, imediata e livremente, por cima de paredes, rios, árvores, e montanhas, e tal como na memória, ele evoca e visita as cenas das suas experiências passadas, assim, enquanto a sua mente continua funcionando no corpo, os seus pensamentos podem estar cem mil yojanas afastados.
Da mesma forma, a personalidade transcendental que experimenta o Samádhi Vajravimbopama estará dotada de poderes sobrenaturais, faculdades psíquicas e auto domínio, pelo qual será capaz de seguir os caminhos nobres que levam às assembleias dos Buddhas, deslocando tão livremente como deseja.
Mas os seus desejos não serão mais egocêntricos nem manchados por discriminação e apegos, já que esta personalidade transcendental não é o seu velho corpo, mas é a incorporação transcendental dos seus votos originais de dádiva de si mesmo para trazer todos os seres à maturidade.
A terceira espécie da personalidade transcendental é tão inefável que é capaz de alcançar a intuição do Dharmakaya, isto é, ele alcança a intuição da cognição ilimitada e inescrutável da Mente Universal.
Como Bodhisattvas Mahasattvas, alcançam as mais altas das etapas e ficam familiarizados com todos os tesouros a serem concretizados na Sabedoria Nobre, eles alcançarão este corpo de transformação incompreensível, que é a natureza verdadeira de todos os Tathágatas do passado, presente e futuro, e participarão na paz feliz que penetra o Dharma de todos os Buddhas."

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Capítulo X

O Discipulado (Aprendizagem): A Linhagem dos Arhats


Então Mahamati perguntou ao Abençoado: “Por favor diz-nos, quantas espécies de discípulos há?”

O Abençoado respondeu:
“Há tantas espécies de discípulos como há de indivíduos, mas por conveniência, eles podem ser divididos em dois grupos: discípulos da linhagem dos Arhats, e discípulos conhecidos como Bodhisattvas.
Os discípulos da linhagem dos Arhats podem ser considerados sob dois aspectos:
Primeiro; Segundo o número de vezes, que eles voltarão a esta vida de nascimento e morte:
E segundo; segundo o seu progresso espiritual.
Debaixo do primeiro aspecto, eles podem ser subdivididos em três grupos:
"Os que Entraram na Corrente", "Os que Retornam Uma Vez", e "Os que Nunca Retornam".
“Os que Entraram na Corrente” são aqueles discípulos, que tendo-se libertado dos apegos às discriminações inferiores e que tendo removido os empecilhos duplos e que claramente entendem a significação do não eu dualista, mas que ainda aderem à noção de individualidade e generalidade e ao seu próprio ego. Eles avançarão ao longo das etapas, até à sexta, só para sucumbir à felicidade fascinante dos Samádhis. Eles renascerão sete vezes, ou cinco vezes, ou três vezes, antes de que sejam capazes de passar da sexta etapa.
“Os que Retornarão Uma Vez” são os Arhats, e “Os que Nunca Retornarão” são os Bodhisattvas que conseguiram a sétima etapa.
As razões dessas graduações, são por causa do seu apego aos três graus da imaginação falsa, a saber:
Fé nas práticas morais, dúvida, e pontos de vista da sua personalidade individual.
Quando esses três obstáculos forem superados, eles serão capazes de alcançar as etapas seguintes.
Quanto às práticas morais:
Os discípulos ignorantes e ingénuos que obedecem às regras da moralidade, piedade e penitência, desejam assim, ganhar o avanço mundano e felicidade, com a esperança acrescida de renascerem em condições mais favoráveis.
“Os que Entraram na Corrente” não aderem às práticas morais, com qualquer esperança de recompensa, por as suas mentes, estarem fixas no estado exaltado da auto realização; o motivo porque se dedicam aos detalhes da moralidade é que eles desejam dominar tais verdades, em conformidade com o imaculado dos bons fluxos.
Quanto ao entrave da dúvida nos ensinamentos do Buda, continuará, até que algumas das noções de discriminação sejam apreciadas e desapareçam quando elas desaparecem.
O apego aos pontos de vista da personalidade individual será libertado, conforme o discípulo ganha uma compreensão mais completa das noções de ser e não ser, natureza própria e não eu dualista, por meio do qual livrar-se-á dos apegos ao seu próprio eu que vão com aquelas discriminações. Rompendo e limpando o caminho destes três obstáculos, ” Os que Entraram na Corrente” serão capazes de libertar-se de toda a ganância, raiva e loucura.
Quanto aos Arhats, “Os que Retornarão Uma Vez”; houve uma vez neles a discriminação da forma, sinais, e aparência, mas como eles gradualmente aprenderam pelo conhecimento correcto para não examinarem individualmente objectos sob o aspecto da qualidade e qualificação, e como eles se tornaram familiares com o objectivo do alcance das práticas de Dhyana, eles conseguiram a etapa da iluminação, onde em mais um renascimento eles serão capazes de pôr fim ao apego do seu próprio egoísmo. Livre desta carga do erro e dos seus apegos, as paixões não mais se afirmarão e os obstáculos serão removidos para sempre.
Sob o segundo aspecto os discípulos podem ser agrupados segundo o progresso espiritual que eles alcançaram, nas quatro classes, a saber; discípulos (Sravaka), mestres (Pratyekabuddha), Arhats, e Bodhisattvas.
A primeira classe de discípulos são os que tem boas intenções, mas encontram dificuldades em entender ideias pouco conhecidas. As suas mentes são alegres quando estudam e praticam as coisas que pertencem ao aspecto visível que pode ser discriminado, mas que ficam confundidos pela noção de uma cadeia ininterrupta da causa e efeito, e ficam temerosos quando consideram os agregados que compõem a personalidade e o mundo dos objectos serem como Maya, vazios e sem eu.
Eles foram capazes de avançar até à quinta ou sexta etapa, onde são capazes de matar a insurreição das paixões, mas não das noções que dão origem às paixões e, por isso, eles são incapazes de livrar-se do apego a uma alma ego e aos seus sentimentos de afectação, hábitos e energia do hábito.
Nesta mesma classe de discípulos estão os discípulos sérios de outras fés, que aderindo às noções de tais coisas como, a alma como uma entidade externa, Atman Supremo, Deus Pessoal, buscam um Nirvana que está de harmonia com eles.
Há outros, mais materialistas nas suas ideias, que pensam que todas as coisas existem na dependência da causa e efeito e, por isso, o Nirvana deve estar numa dependência parecida.
Mas nenhum desses, embora sérios, vêm a compreender a verdade do não ego dualista e são por isso, de discernimentos espirituais limitados quanto à libertação e não libertação; para eles não há nenhuma emancipação. Eles têm uma grande auto confiança, mas nunca podem obter um conhecimento verdadeiro do Nirvana, até que tenham aprendido, eles mesmos, a aceitação paciente do não eu dualista.
A segunda classe de mestres são aqueles que ganharam um alto grau de compreensão intelectual das verdades, acerca dos agregados que compõem a personalidade e o seu mundo externo, mas que ficam cheios de medo quando enfrentam o significado e as consequências dessas verdades, e as exigências que a sua aprendizagem faz sobre eles, isto é, não se tornarem apegados ao mundo externo e à sua criação de formas múltiplas de conforto e poder, e conservarem longe de si os empecilhos das suas relações sociais.
Eles são atraídos pelas possibilidades que se podem atingir, a saber; a posse de poderes miraculosos, como a divisão da personalidade e o aparecimento em lugares diferentes ao mesmo tempo, ou da manifestação dos corpos de transformação.
Para ganhar esses poderes eles até aderem à vida solitária, mas esta classe de mestres nunca vai além da sedução da sua aprendizagem e egoísmo, e os seus discursos são sempre conforme aquela característica e limitação.
Entre eles estão muitos discípulos sérios que mostram um grau de discernimento espiritual que é caracterizado pela sinceridade, vontade e resolução de satisfazer todas as exigências que as etapas exercem sobre eles. Quando eles vêem que tudo o que compõe o mundo objectivo é só uma manifestação da mente, que é sem natureza própria, não nascida e sem ego eles aceitam-no sem medo, e quando vêem que a sua própria alma ego é também vazia, não nascida e sem ego, ficam tranquilos e corajosos, com um objectivo sincero, procuram ajustar as suas vidas ao máximo das exigências destas verdades, mas não podem esquecer as noções que residem nestes factos, especialmente a noção do seu próprio ego consciente e a sua relação com o Nirvana. Eles são da classe dos que “Entraram na Corrente”.
A classe conhecida como Arhats são aqueles mestres verdadeiros que pertencem à classe dos que retornam. Mas no seu discernimento espiritual eles conseguiram as sextas e sétimas etapas. Eles entenderam completamente a verdade do não eu dualista e a não imagem da Realidade; com eles, não há mais discriminação, nem paixões, nem orgulho de egoísmo; eles ganharam um discernimento exaltado e viram a imensidão das terras Buda.
Alcançando uma percepção interior da natureza verdadeira da Mente Universal eles estão purificando com firmeza a sua energia do hábito.
O Arhats alcançou a emancipação, a iluminação, as Dhyanas, o Samádhis, e a sua atenção inteira é dada à obtenção do Nirvana, mas a ideia do Nirvana causa perturbações mentais porque ele tem uma ideia incorrecta do Nirvana.
As noções de Nirvana na sua mente estão divididas: ele discrimina o Nirvana do eu, e o eu dos outros. Alcançou alguns frutos da auto realização, mas ainda pensa e discursa nas Dhyanas, nos assuntos da meditação, nos Samádhis, e nos frutos. Com soberba diz: "há grilhões, mas estou desembaraçado deles." É uma dupla falta: ele tanto denuncia os vícios do ego, como ainda adere aos seus grilhões. Enquanto continua a discriminar as noções de Dhyana, prática de Dhyana, assuntos de Dhyana, conhecimento correcto e verdade, há um estado confuso da mente; ele não alcançou a emancipação perfeita. A emancipação vem com a aceitação da não imagem.
Ele é o mestre das Dhyanas e entra nos Samádhis, mas para conseguir as mais altas etapas, ele deve passar além das Dhyanas, dos imensuráveis, do mundo da não forma, e da felicidade dos Samádhis no Samapattis que leva à cessação do próprio pensamento. O praticante de Dhyana, Dhyana, o tema de Dhyana, a cessação do pensamento, retornar uma vez, nunca retornar, todos estão divididos e confusos nos estados da mente.
A emancipação perfeita não estará lá, até que toda a discriminação seja abandonada.
Assim o Arhats, o mestre das Dhyanas, que participa nos Samádhis, e sem o apoio dos Buddhas cede à felicidade fascinante dos Samádhis e passa ao seu Nirvana.
Os discípulos os mestres e os Arhats podem ascender até à sexta etapa. Eles percebem que o mundo triplo não é mais do que a própria mente; eles percebem que não há transformação ligada à multiplicidade dos objectos externos, excepto pelas discriminações e atividades da própria mente; eles percebem que não há nenhuma alma ego; e, portanto, alcançam a medida da tranquilidade. Mas a sua tranquilidade não é perfeita a cada minuto das suas vidas, já que com eles há alguma coisa produzindo impressão, alguma compreensão e incompreensão, alguns traços residuais de dualismo e egoísmo.
Embora desembaraçados do funcionamento activo das paixões eles ainda estão unidos à energia do hábito da paixão e, intoxicados com o vinho dos Samádhis, terão a sua residência no reino das boas não emanações.
A perfeita tranquilidade é somente possível na sétima etapa. Enquanto as suas mentes estiverem na confusão, eles não podem alcançar uma clara convicção da cessação de toda a multiplicidade e da actualização perfeita de todas as coisas.
Nas suas mentes a natureza própria das coisas, ainda é discriminada como boa e má, por isso, as suas mentes estão em confusão e eles não podem passar além da sexta etapa. Mas na sexta etapa, toda a discriminação cessa assim que se absorvem completamente na felicidade dos Samádhis, no qual eles tratam com carinho o pensamento do Nirvana e, como o Nirvana é possível na sexta etapa, eles entram no seu Nirvana, mas não no Nirvana dos Buddhas. "

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Capítulo XI

O Estado Bodhisattva e As suas Etapas

Mahamati então disse ao Abençoado:
“Poderás falar-nos agora dos discípulos que são Bodhisattvas?”

O Abençoado respondeu:
“Os Bodhisattvas são aqueles discípulos verdadeiros, que são esclarecidos devido aos seus esforços para alcançar a auto realização da Sabedoria Nobre e que assumiram a tarefa de esclarecer os outros.
Eles ganharam uma compreensão clara da verdade, de que todas as coisas são vazias, não nascidas, e de natureza igual a Maia; eles cessaram de examinar as coisas discriminativamente e de considerá-las nas suas relações; entenderam completamente a verdade do não ego dualista e ajustaram-se a uma aceitação paciente; alcançaram uma realização clara e distinta da não imagem; e permanecem no conhecimento perfeito que eles ganharam pela auto realização da Sabedoria Nobre.
Bem selados com o selo característico da "Qualidade Essencial" eles entraram na primeiras etapas do Bodhisattva. A primeira etapa é chamada a etapa da Alegria (Pranudita).
Entrar nesta etapa é como perder espontaneamente a consciência do brilho das sombras no reino das não sombras; é como perder a noção do barulho e tumulto da compressão da cidade, na quietude da solidão.
O Bodhisattva sente dentro dele o despertar de um grande coração de compaixão e profere os seus dez votos originais:

Honrar e servir todos os Buddhas;
Espalhar o conhecimento e a prática do Dharma;
Dar as boas-vindas a todos os Buddhas vindouros;
Praticar as seis Paramitas;
Persuadir todos os seres a abraçar o Dharma;
Alcançar uma compreensão perfeita do universo;
Alcançar uma compreensão perfeita da reciprocidade de sentimentos de todos os seres;
Alcançar a auto realização perfeita da unidade de todos os Buddhas e Tathágatas, da auto natureza, objectivos e recursos;
Familiarizar-se com todos os meios e conhecimentos, para implementar e executar esses votos, pela emancipação de todos os seres;
Concretizar a iluminação suprema através da auto realização perfeita da Sabedoria Nobre, ascendendo às etapas e entrando no Estado Tathagata.

No espírito desses votos o Bodhisattva sobe gradualmente até à sexta etapa.
Todos os discípulos verdadeiros, mestres e Arhats ascenderam até aqui, mas ficando encantados pela felicidade dos Samádhis e não sendo apoiados pelos poderes dos Buddhas, eles passam ao seu Nirvana. O mesmo destino teriam os Bodhisattvas a menos que pelo poder do apoio dos Buddhas, seja-lhes permitido recusarem-se a entrar no Nirvana, até que todos os seres possam entrar com eles no Nirvana. Os Tathágatas indicam-lhes as virtudes da Budidade, que estão além do conceito da mente intelectual, estimulam e fortalecem os Bodhisattvas para não ceder ao encantamento da felicidade dos Samádhis, mas, continuar no novo avanço ao longo das etapas.
Se os Bodhisattvas tivessem entrado no Nirvana nesta etapa, e se o tivessem feito sem o poder do apoio dos Buddhas, teria havido cessação de todas as coisas e a família dos Tathágatas extinguir-se-ia.
Fortalecidos pela nova força que lhes vem dos Buddhas e com o discernimento mais perfeito, motivado pelo seu avanço na auto realização da Sabedoria Nobre, eles reexaminam a natureza do sistema mental, o não eu da personalidade, e a parte da avareza e apego e da energia do hábito que jogam o drama evolutivo da vida; eles reexaminam as ilusões da análise lógica quádrupla, e os vários elementos que tomam parte na iluminação, na auto realização, e na emoção dos seus novos poderes de auto domínio, os Bodhisattvas entram para a sétima etapa da Longa caminhada (Durangama).
Apoiados pelo poder de sustentação dos Buddhas, os Bodhisattvas nesta etapa, entram na felicidade do Samádhi da tranquilidade perfeita.
Devido aos seus votos originais que são movidos por emoções de amor e compaixão, eles tornam-se cônscios da parte que estão executando, na realização dos seus votos, para emancipação de todos os seres. Assim, não entram no Nirvana, mas na realidade, eles também já estão no Nirvana porque nas suas emoções de amor e compaixão, não há o surgir de discriminações; daqui em diante, para eles, a discriminação não mais terá lugar.
Por causa da Inteligência Transcendental só um conceito está presente - a promoção da realização da Sabedoria Nobre. Isto é chamado o Nirvana do Bodhisattva - perder-se na perfeita felicidade do auto compromisso. Isto é a sétima etapa, a etapa da caminhada Longa.
A oitava etapa é a etapa do não retorno (Acala). Até esta etapa, por causa das contaminações na superfície da Mente Universal, causada pela acumulação da energia do hábito desde o tempo sem princípio, o sistema mental e tudo o que lhe pertence, foi desenvolvido e mantido. O sistema mental funcionou pelas discriminações de um mundo externo e objectivo, ao qual ficou ligado e pelo qual foi perpetuado.
Mas quando o Bodhisattva alcança a oitava etapa, dá-se uma “inversão” no interior da sua consciência profunda, do egocentrismo para a compaixão universal de todos os seres, pelo qual, ele alcança a auto realização perfeita da Sabedoria Nobre.
Há um instante de cessação das atividades ilusórias de todo o sistema mental; a dança das ondas da energia do hábito na superfície da Mente Universal tornam-se para sempre inactivas, revelando a sua própria solidão e tranquilidade inerentes; a Unidade inconcebível da Matriz do estado Tathágata.
Daqui em diante não haverá mais nenhum olhar sobre a realidade física do mundo externo, pelos sentidos e pelas mentes sensoriais, nem discriminação de conceitos particularizados, ideias e proposições por uma mente intelectual, não mais avidez, nem apego, nem orgulho de egoísmo, nem energia do hábito.
Daqui em diante há só a experiência interior da Sabedoria Nobre, que foi alcançada entrando na sua Unidade perfeita.
Assim, estabelecendo-se na oitava etapa dos “Sem retorno”, o Bodhisattva entra na felicidade dos dez Samádhis, mas evitando o caminho dos discípulos e mestres que se renderam à felicidade fascinante e que passaram aos seus Nirvanas, e apoiado pelos seus votos e a Inteligência Transcendental, que é agora sua, apoiado pelo poder dos Buddhas, ele entra nos mais elevados caminhos, que levam ao Estado Tathágata.
Ele passa pela felicidade dos Samádhis para assumir o corpo de transformação de um Tathagata, que por ele todos os seres podem ser emancipados.
Mahamati, Se não tivesse havido nenhuma matriz Tathagata nem nenhuma Mente Divina então não teria havido o aparecimento e o desaparecimento dos agregados que compõem a personalidade e o seu mundo externo, nenhum aparecimento e desaparecimento de gente ignorante nem de gente sagrada, nem nenhuma tarefa para os Bodhisattvas; por isso, andando no caminho da auto realização e entrando nos prazeres dos Samádhis, tu nunca deves abandonar o trabalho árduo pela emancipação de todos os seres, pelo que o teu amor de auto resignação nunca será em vão.
Para os filósofos, o conceito de matriz Tathágata parece destituído de pureza e sujo por essas manifestações externas, mas não é entendido assim pelos Tathágatas. Para eles não é uma proposição filosófica, mas uma experiência intuitiva tão real como se ela fosse um fruto amalaka mantido na palma da mão.
Com a cessação do sistema mental e de todas as suas envolventes discriminações, há a cessação de toda a tensão nervosa e esforço. É parecido com um homem que num sonho imagina que está cruzando um rio e que se esforça ao máximo para o cruzar, mas que repentinamente acorda. Então pensa: "isto é verdadeiro ou é irreal?" Estando agora esclarecido, ele sabe que não é nem verdadeiro nem irreal.
Assim quando o Bodhisattva chega à oitava etapa, ele é capaz, de facto, de ver todas as coisas verdadeiramente e, mais do que isso, é capaz de entender completamente o significado de tudo, como coisas sonhadas da sua vida, tanto no que respeita a como elas acontecem, como no que respeita a como elas desaparecem.
Desde o tempo sem principio, o sistema mental percebeu multiplicidades de formas, condições, e ideias, que a mente do pensamento discriminou, e a mente empírica experimentou, agarrou, e aderiu. Disto, resultou o aumento da energia do hábito, que pela sua acumulação, condicionou as ilusões de existência e inexistência, individualidade e generalidade, e perpetuou assim, o estado de sonho da imaginação falsa.
Mas agora, para os Bodhisattvas da oitava etapa, a vida está passada e é lembrada, como realmente foi - um sonho passado.
Embora o Bodhisattva não tenha passado a sétima etapa, e embora tenha alcançado uma compreensão intuitiva do significado verdadeiro da vida e da sua natureza como Maia, e como a mente ainda segue as suas discriminações e apegos, não obstante tenha continuado a estar ligado às noções destas coisas, e embora ele não mais experimentasse dentro de si qualquer desejo ardente dessas coisas, nem qualquer impulso de ainda as possuir, mesmo assim, as noções acerca delas persistiram e suavizaram os seus esforços para praticar os ensinamentos dos Buddhas e trabalhar para a emancipação de todos os seres.

Agora, na oitava etapa, até as noções desaparecerem, todo o esforço e empenho são vistos como sendo desnecessários.
O Nirvana do Bodhisattva é a tranquilidade perfeita, mas não é, nem a extinção nem a inércia; enquanto há uma completa ausência de discriminação e objectivos, há liberdade e espontaneidade da potencialidade que veio com a obtenção e a aceitação paciente das verdades do não eu e não imagem.
Aqui, está a solidão perfeita, imperturbável por qualquer ordem ou sucessão contínua, mas radiante com a potência e a liberdade da sua natureza própria, que é a natureza própria da Sabedoria Nobre, com felicidade pacífica e com a serenidade do Amor Perfeito.

Entrando na oitava etapa, na "inversão" dada no lugar mais profundo da consciência, o Bodhisattva vai tornar-se consciente de que recebeu a segunda característica do corpo Transcendental (Manomayakaya). A transição do corpo mortal ao Corpo transcendental não tem nada a ver com a morte mortal, já que o velho corpo continua a funcionar e a velha mente serve as necessidades do velho corpo, mas agora é livre do controle da mente mortal.
Houve uma morte na transformação inconcebível (accintya-parinama-cyuti), pelo qual a imaginação falsa da sua personalidade individual particularizada foi transcendida por uma realização da sua unidade com a mente universalizada do estado Tathágata, realização da qual não haverá retorno.
Com esta realização ele encontra-se amplamente dotado de todos os poderes dos Tathágata's, faculdades psíquicas, e auto domínio, e assim como a boa terra é o suporte de todos os seres no mundo do desejo (karmadathu), assim os Tathágatas tornam-se o suporte de todos os seres do Mundo Transcendental da não forma.

As primeiras sete, das etapas do Bodhisattva aconteceram no reino da mente, e a oitava, enquanto a mente transcendia, estava em contacto com ele; mas na nona etapa da Inteligência Transcendental (Sadhumati), por causa da sua inteligência perfeita e discernimento, na não imagem da Mente Divina, que ele tinha alcançado pela auto realização da Sabedoria Nobre, ele está no reino do estado Tathágata. Gradualmente o Bodhisattva entenderá a sua natureza Tathagata, a posse de todos os seus poderes e faculdades psíquicas, auto domínio, compaixão amorosa, e os meios hábeis, pelos quais estabelecerão todas as terras de Buda.
Fazendo uso desses novos poderes, o Bodhisattva assumirá vários corpos de transformação e personalidades, do qual outros beneficiarão.
Tal como na vida mental anterior, a imaginação tinha surgido do conhecimento relativo, assim agora os meios hábeis surgem espontaneamente da Inteligência Transcendental. Ele parece-se com a jóia mágica, que reflecte as respostas instantaneamente, apropriadas aos desejos de alguém.
O Bodhisattva passa por todas as assembleias dos Buddhas e escuta como elas falam, como um sonho, da natureza de todas as coisas e acerca das verdades que transcendem todas as noções do ser e não ser, que não tem nenhuma relação com o nascimento e morte, nem com a eternidade nem a extinção. Assim enfrentando os Tathágatas, como eles discursam na Sabedoria Nobre que está distante e além da capacidade mental dos discípulos e mestres, ele alcançará cem mil Samádhis, de facto, cem mil Nayutas de kotis de Samádhis, e no espírito desses Samádhis, ele passará imediatamente de uma terra de Buda a outra, prestando homenagem a todos os Buddhas, nascendo em todas as mansões celestiais, manifestando corpos de Buda, e discursará no Tesouro Triplo, aos Bodhisattvas menores, que também podem participar dos frutos da auto realização da Sabedoria Nobre.
Assim, passando além da última etapa do caminho do Bodhisattva, ele torna-se, um Tathágata por si mesmo, dotado de toda a liberdade do Dharmakaya.
A décima etapa pertence aos Tathágatas. Aqui o Bodhisattva vai-se encontrar sentado sobre um trono parecido com um lótus, num palácio adornado de esplêndidas jóias e rodeado de Bodhisattvas de igual categoria. Os Buddhas de todas as terras Buda vão-se reunir sobre ele, e com as suas mãos puras e fragrantes que descansam na sua testa, lhe dará a ordenação e o reconhecimento, como um deles. Então eles destinar-lhe-ão uma terra Buda que ele poderá possuir e aperfeiçoar como sua propriedade.
A décima etapa é chamada a Grande Nuvem da Verdade (Dharmamegha), incompreensível, e inescrutável.
Só os Tathágatas podem conhecer a perfeita não Imagem, a Unidade e a Solidão. Ele é a Mahesvara, a Terra Radiante, a Terra Pura, a Terra das Distâncias distantes; rodeando e superando os mundos inferiores da forma e do desejo (karmadathu), no qual o Bodhisattva se encontrará “compensado”.
Os seus raios de Sabedoria Nobre que são da natureza própria dos Tathágatas, multicores, fascinantes, auspiciosos, estão transformando o mundo triplo como outros mundos foram transformados no passado, e como em outros casos, outros mundos serão transformados no futuro.
Mas na Unidade Perfeita da Sabedoria Nobre não há nenhuma classificação, nem sucessão, nem esforço.
A décima etapa é a primeira, a primeira é oitava, e a oitava é a quinta, a quinta a sétima: que classificação pode haver onde a perfeita não imagem e a Unidade prevalecem?
E qual é a realidade da Sabedoria Nobre?
Ela é a potência inefável do Dharmakaya; ela não tem nenhum limite nem limites; ela sobrepõe-se a todas as terras Buda, e penetra o Akanistha e as mansões celestes do Tushita (Céus).”


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Capítulo XII

O Estado Tathágata, que é a Sabedoria Nobre


Mahamati então disse ao Abençoado: “Foi ensinado nos livros canónicos que os Buddhas não estão sujeitos nem ao nascimento nem à destruição, e o Abençoado disse que "não nascido" é um dos nomes dos Tathágatas; isto significa que o Tathágata é uma não existência?”

O Abençoado respondeu:
“ O Tathágata não é uma não entidade, nem deve ser concebido como outras coisas o são, como, nem nascidas nem extintas, nem está sujeito à causa e efeito, nem é sem significado; mesmo assim refiro-me a ele como o “Não Nascido”. Contudo há outro nome para o Tathágata. "O corpo feito pela Mente" (Manomayakaya) em que o seu corpo Essência, assume de acordo com a sua vontade, os acontecimentos nas transformações do seu trabalho de emancipação. Isto está além da compreensão dos discípulos comuns e mestres, e até, além da total compreensão, daqueles Bodhisattvas que permanecem na sétima etapa.
Sim, Mahamati, "O Não Nascido" é sinónimo de Tathágata.”

Então Mahamati disse:
“Se os Tathágatas são não nascidos, parece não haver alguma coisa - nenhuma entidade – para agarrar, ou tomar o control dessa coisa, ou há alguma coisa que tenha outro nome sem ser entidade? E o que é que pode ser "alguma coisa" ?”
O Abençoado respondeu:
“Os objectos são frequentemente conhecidos por nomes diferentes segundo os aspectos diferentes que eles apresentam, o deus Indra é às vezes conhecido como Shakra, e às vezes como Purandara.
Esses nomes diferentes são às vezes usados de forma alternada e às vezes são discriminados, mas os objectos diferentes não são para ser imaginados, por causa dos diferentes nomes, nem eles são sem individualidade.
O mesmo pode ser dito de mim como apareço neste mundo de paciência perante as pessoas ignorantes e onde sou conhecido por incontáveis triliões de nomes. Eles dirigem-se a mim por diferentes nomes não percebendo que eles são todos os nomes do Tathágata.
Uns reconhecem-me como Tathágata, outros como o auto existente, outros como Gautama o Asceta, alguns outros como Buda.
Outros ainda há, que me reconhecem como Brahma, como Vishnu, como Ishvara; alguns vêem me como o Sol, como a Lua; outros como uma reencarnação dos sábios antigos; outros como um "dos dez poderes"; outros como Rama, outros como Indra, e alguns outros como Varuna.
Há ainda outros que falam de mim como O Não nascido, como o Vazio, como "as coisas como elas são", como a Verdade, como a Realidade, como o Princípio Último; há ainda outros que me vêem como Dharmakaya, como Nirvana, como o Eterno; alguns falam de mim como uniformidade, como não dualidade, como imortal, como informe; alguns pensam em mim como a doutrina de causa e efeito do Buda, ou da Emancipação, ou do Caminho Nobre; e alguns pensam em mim como Mente Divina e Sabedoria Nobre.
Assim neste mundo e em outros mundos eu sou conhecido por esses incontáveis nomes, mas todos eles me vêem como a lua é vista na água.
Embora todos eles me honrem, louvem e estimem, eles não entendem totalmente a importância e o significado das palavras que usam; não tendo a sua própria auto realização da Verdade, eles aderem às palavras dos seus livros canónicos, ou ao que lhes foi dito, ou ao que eles imaginaram, e não conseguem ver que o nome que eles estão usando é só um, de muitos nomes do Tathágata.
Nos seus estudos eles seguem as meras palavras do texto, que vaidosamente tentam obter a verdadeira importância, em vez de terem confiança num "texto" onde a auto confirmação da Verdade é revelada, isto é, tendo confiança na auto realização da Sabedoria Nobre.”

Mahamati então disse:
“Imploramos-te Abençoado, que nos fales sobre a natureza própria dos Tathágatas.”

O Abençoado respondeu:
“Se o Tathágata é para ser descrito por tais expressões como feito ou não feito, causa ou efeito, deveríamos descrevê-lo como, nem feito, nem não feito, nem causa, nem efeito; mas se assim o descrevêssemos seríamos culpados de discriminação dualística.
Se o Tathágata é alguma coisa feita, ele seria impermanente; se ele é impermanente, qualquer coisa feita seria um Tathágata.
Se ele é qualquer coisa não feita, então todo o esforço para entender o estado Tathágata será inútil. Pelo que não é, nem um efeito nem uma causa, e nem é ser nem não ser, e aquele que não é nem ser nem não ser, está fora das quatro proposições.
As quatro proposições pertencem ao uso mundano; o que está no exterior não é mais do que uma palavra, como a criança de uma mulher estéril; assim são todos os termos respeitantes ao Tathágata para serem entendidos.
Quando se diz que todas as coisas são sem eu, isso significa que todas as coisas são destituídas de individualidade.
Cada coisa pode ter a sua própria individualidade, o ser de um cavalo não é da mesma natureza que de uma vaca, é como ele é, com a sua natureza própria, e é assim discriminada pelo ignorante, mas, no entanto, a sua própria natureza é da natureza de um sonho ou visão. Por isso o ignorante e o ingénuo, que estão habituados a discriminar as aparências, não conseguem entender o significado do não eu. Até que nos libertemos da discriminação, o facto de que todas as coisas são vazias, não nascidas e sem natureza própria, não podem ser apreciadas.
Mahamati, todas essas expressões aplicadas aos Tathágatas não tem significado, o que não tem significado é retirado de toda a comparação, o que é retirado de toda a comparação, converte-se em palavras sem sentido; o que é uma mera palavra é algo não nascido; o que é não nascido, não está sujeito à destruição; o que não está sujeito à destruição parece-se com o espaço e o espaço não é nem efeito nem causa; o que não é, nem efeito nem causa, é algo incondicionado; o que é incondicionado está além de todo o raciocínio; o que está além de todo o raciocínio, é o Tathágata. A natureza própria do estado Tathagata, está removida e afastada de todos os predicados e comparações; a natureza própria do estado Tathágata é a Sabedoria Nobre.”

Então Mahamati disse ao Abençoado:
“Os Tathágatas são permanentes ou impermanentes?”

O Abençoado respondeu:
“Os Tathágatas não são nem permanentes nem impermanentes; se qualquer uma destas declarações for afirmada, há um erro conectado com os agentes produtores, porque segundo os filósofos, os agentes produtores são algo não criados e permanente. Mas os Tathágatas, não estão conectados, com os assim chamadas agentes produtores e nesse sentido eles são impermanentes. Se se disser que eles são impermanentes, então, eles estão conectados com coisas que são criadas, já que, elas também são impermanentes. Por essas razões, os Tathágatas não são, nem permanentes nem impermanentes.
Nem se pode dizer que os Tathágatas são permanentes, no sentido em que se diz que o espaço é permanente, ou que se possa dizer que os chifres de uma lebre sejam permanentes, sendo irreais, eles excluem todas as ideia de permanência ou impermanência.
Isto não se aplica aos Tathágatas porque eles abandonaram a energia do hábito da ignorância, que está unida com o sistema mental e os elementos que compõem a personalidade. O mundo triplo origina-se da discriminação das não realidades e onde a discriminação tem lugar, há dualidade e a noção de permanência e impermanência, mas os Tathágatas não surgem da discriminação das não realidades. Assim, enquanto há discriminação haverá noção de permanência e impermanência; quando a discriminação é retirada, a Sabedoria Nobre, que é baseada no significado da solidão, é estabelecida.
Contudo, há outro sentido, no qual, se pode dizer que os Tathágatas são permanentes. A Inteligência Transcendental que surge com a obtenção da iluminação é de uma natureza permanente. Esta Essência da verdade, que é encontrada na iluminação de todos os que são esclarecidos, é realizável, como o princípio regulador e sustentador da Realidade, no qual vive sempre. A Inteligência Transcendental alcançada intuitivamente pelos Tathágatas pela sua auto realização da Sabedoria Nobre, é uma realização da sua própria auto natureza, neste sentido os Tathágatas são permanentes.

O inimaginável eterno dos Tathágatas é "as coisas como elas são" da Sabedoria nobre realizada dentro deles.
É tanto eterno, como além do pensamento.
É conforme a ideia de uma causa e ainda está além de existência e inexistência.
Como ele é o estado exaltado da Sabedoria nobre, ele tem o seu carácter próprio.
Como ele é a causa da Realidade Suprema, ele é a sua própria causa e efeito.
A sua eternidade não é derivada do raciocínio baseado em noções externas de ser e não ser, nem de eternidade, nem não eternidade.
Sendo classificado sob a mesma cognição que o espaço, a cessação, e o Nirvana, são eternos.
Como ele não tem nada a ver com a existência e a não existência, não é nenhum criador; porque ele não tem nada a ver com a criação, nem com ser e não ser, mas só é revelado no estado exaltado da Sabedoria nobre, é realmente eterno.

Quando as paixões duplas são destruídas, os empecilhos duplos limpos, e o não ego dualista é totalmente entendido, a incompreensível transformação da morte do Bodhisattva é alcançada - o que permanece é a auto natureza dos Tathágatas.
Quando os ensinamentos do Dharma são totalmente entendidos e perfeitamente realizados pelos discípulos e mestres, aquilo que é realizado na sua consciência mais profunda, é a sua própria natureza Buda, revelada como Tathágata.

Num sentido verdadeiro, há quatro espécies de semelhanças, que se relaciona com a natureza Buda: há a semelhança das letras, a semelhança das palavras, a semelhança do significado, e a semelhança da Essência.
O nome de Buda é soletrado: B-U-D-D-H-A; as letras são as mesmas, quando usadas para qualquer um dos dois, Buda ou Tathágata.
Quando os Brahmans ensinam que eles usam várias palavras, e quando os Tathágatas ensinam que eles usam as mesmas palavras; a respeito das palavras há uma semelhança entre nós.
Nos ensinamentos de todos os Tathágatas, há uma semelhança de significado.
Entre todos os Buddhas há uma semelhança de natureza Búdica.
Todos eles têm as trinta e duas marcas da excelência e os oitenta sinais menores da perfeição corpórea; não há nenhuma distinção entre eles, excepto na forma, de como eles manifestam as várias transformações, segundo as diferentes disposições dos seres que devem ser disciplinados e emancipados por vários meios.
Na Essência Última, que é o Dharmakaya, todos os Buddhas do passado, presente e futuro, são da mesma semelhança.”

Mahamati então disse ao Abençoado:
“Foi dito pelo Abençoado, que da noite da Iluminação à noite do Parinirvana, o Tathágata não proferiu nenhuma palavra, nem alguma vez proferirá uma palavra. Em que significado profundo isto é verdadeiro?”

O Abençoado respondeu:
“Por duas razões de significado profundo isso é verdadeiro: Pela luz da Verdade auto realizada pela Sabedoria Nobre, e na Verdade de uma Realidade eternamente duradoura.
A auto realização da Sabedoria Nobre por todos os Tathágatas, é a mesma, que a minha própria auto realização da Sabedoria Nobre; não é mais nem menos, nenhuma diferença há, e todos os Tathágatas testemunham que o estado da auto realização é livre de palavras e discriminações e não tem nada a ver, com o modo dualístico de falar, isto é, todos os seres recebem os ensinamentos dos Tathágatas pela auto realização da Sabedoria Nobre e não através das palavras discriminatórias.
Na verdade Mahamati, sempre houve uma realidade eternamente duradoura. "A substância" da Verdade (Dharmadhatu) permanece para sempre, pese embora, um Tathágata aparece no mundo ou não.
Portanto esta é a Razão de todas as coisas (dharmata) durarem eternamente; assim a Realidade (paramartha) permanece e mantém a sua ordem.
O que foi realizado por mim mesmo e todos os outros Tathágatas, é esta Realidade (Dharmakaya), a eternamente duradoura auto disciplina da Realidade;
o "as coisas são como elas são" (tathata) de todas as coisas;
as veracidades das coisas (bhutata);
a Sabedoria Nobre, que é a própria Verdade.
O sol irradia o seu esplendor espontaneamente em todos igualmente e sem palavras de explicação; de maneira parecida fazem os Tathágatas, irradiam a Verdade da Sabedoria Nobre sem recurso a palavras e a todos por igual.
Por essas razões, eu afirmei, que da noite da iluminação, à noite do Parinirvana doTathágata, ele não proferiu, nem proferirá, uma palavra. E o mesmo é verdadeiro acerca de todos os Buddhas.”

Então Mahamati disse:
“Abençoado, tu falas da semelhança de todos os Buddhas, mas em outros lugares tu falas-te do Dharmata Buda, Nishyanda Buda e Nirmana Buda como se eles fossem diferentes uns dos outros; como podem eles, ser o mesmo e diferente?”

O Abençoado respondeu:
“Eu falo de Buddhas diferentes, em oposição aos pontos de vista dos filósofos, que baseiam os seus ensinamentos na realidade de um mundo externo do qual apreciam a discriminação e os apegos que de lá surgem; contra os ensinamentos desses filósofos, revelo, Nirmana Buda, o Buda das Transformações.
Em muitas transformações da etapa Tathágata Nirmana Buda, são encontradas tais matérias como, caridade, moralidade, paciência, meditação, e tranquilidade: pelo conhecimento correcto ele ensina a verdadeira compreensão da natureza de Maya, dos elementos que compõem a personalidade e o seu mundo externo; ele ensina a verdadeira natureza do sistema mental no conjunto e nas distinções das suas formas, funções e caminhos da realização.
Num sentido mais profundo, Nirmana Buda simboliza os princípios de diferenciação e integração pela qual todas as coisas constituídas são distribuídas, todas as complexidades simplificadas, todos os pensamentos analisados; ao mesmo tempo ele simboliza a harmonização, unificando o poder da simpatia e da compaixão; ele retira todos os obstáculos, ele harmoniza todas as diferenças, ele traz na Unidade perfeita os muitos discordante.
Para a emancipação de todos os seres, os Bodhisattvas e Tathágatas assumem corpos de transformação e empregam muitos dispositivos hábeis, isto é o trabalho de Nirmana Buda.
Para a iluminação dos Bodhisattvas e no apoio a dar-lhes ao longo das etapas, o Incompreensível é feito realizável. Nishyanda Buda, "Buda Emanação", através da Inteligência Transcendental, revela a importância e o verdadeiro significado da emanação das coisas, discriminação e apego; do poder da energia do hábito que é acumulada por eles e em que condições; do não nascido, do vazio, e do não eu de todas as coisas.
Por causa da Inteligência Transcendental e da purificação do mal que emana da vida, todos os pontos de vista dualísticos da existência e não existência, são transcendidos, e pela auto realização da Sabedoria Nobre a não imagem da Realidade é manifestada. A inconcebível glória do estado Búdico é manifestada em raios da Sabedoria Nobre; a Sabedoria Nobre é a auto natureza dos Tathágatas. Isto é o trabalho de Nishyanda Buda.
Num sentido mais profundo, Nishyanda Buda, simboliza a emergência dos princípios do processo do pensamento e compaixão, mas até agora não diferenciado e no potencial do equilíbrio perfeito, não manifestado.
Visto do lado de dentro do Bodhisattva, Nishyanda Buda é visto nos corpos glorificados dos Tathágatas; visto do lado da quarta região do estado Búdico, Nishyanda Buda é visto nas personalidades radiantes dos Tathágatas, prontos e ansiosos por manifestar o Amor inerente da Sabedoria do Dharmakaya.
Dharmata Buda é o estado Búdico na sua auto natureza da unidade perfeita, em que a Tranquilidade absoluta prevalece. Como a Sabedoria nobre, Dharmata Buda transcende todo o conhecimento diferenciado, é o objectivo da auto realização intuitiva, e é a auto natureza dos Tathágatas.
Como Sabedoria Nobre, Dharmata Buda é o Princípio último da Realidade, da qual deriva o ser e autenticidade de todas as coisas, mas que em si mesmo transcende todos os predicados.
Dharmata Buda é o sol central, que mantém todos iluminados. A sua Essência incompreensível, é manifestada na "emanação" da gloria do Nishyanda Buda e nas transformações de Nirmana Buda.”

Mahamati então disse:
“Imploramos-te Abençoado, que nos fales mais sobre o Dharmakaya.”

O Abençoado respondeu:
“Estivemos falando dele quanto ao estado Búdico, mas inescrutável e além da lógica, podemos falar dele, justamente como o Corpo da verdade ou o Princípio da verdade da Realidade última (Paramartha).
Este Princípio Último da Realidade pode ser considerado como é manifestado, sob sete aspectos:
Primeiro, como Citta gocara, que é o mundo da experiência espiritual e da permanência dos Tathágatas na sua missão de escape da emancipação. Ele é a Sabedoria Nobre manifestada como o princípio do processo do pensamento e individualidade.
Em segundo lugar, como Jnana, ele é o mundo mental e o seu princípio do pensamento e consciência.
O terceiro como Dristi, é o reino do dualismo, que é o mundo físico do nascimento e morte, onde são manifestadas todas as diferenciações de pensador, pensamento, e o conteúdo da cognição, através e onde são manifestados os princípios da sensação, percepção, discriminação, desejo, apego e sofrimento.
Quarto, por causa da ganância, raiva, obsessão, sofrimento, e a necessidade da ocorrência de um mundo físico para a discriminação e apego, ele revela um mundo além do reino do dualismo, em que aparece como um princípio que se integra de caridade e compaixão.
Em quinto lugar, num reino superior, que é a residência das etapas do Bodhisattva, e é análogo ao mundo mental, onde os interesses do coração transcendem os da mente, aparece como o princípio da compaixão desinteressada.
Em sexto lugar, no reino espiritual onde os Bodhisattvas alcançam o estado Búdico, aparece como o princípio do Amor perfeito (Karuna). Aqui o último apego ao ego é abandonado e o Bodhisattva entra na sua auto realização da Sabedoria nobre, que é a felicidade dos Tathágatas, o gozo perfeito da sua natureza íntima.
Sétimo, como Prajna ele é o aspecto activo do Princípio Último, onde ambos, o que vai e o que vem, são como princípios implícitos e potenciais, em que tanto a Sabedoria como o Amor, estão em equilíbrio perfeito, harmonia e Unidade.

Esses são os sete aspectos do Princípio último do Dharmakaya, pelo qual todas as coisas são feitas, manifestadas e aperfeiçoadas, e então reintegradas, e todo o resto dentro da sua Unidade inescrutável, sem sinais de individualização, nem começo, nem sucessão ou fim, nós falamos dele como Dharmakaya, como Princípio Último, como estado Búdico, como Nirvana; o que importa? São só outros nomes da Sabedoria nobre.
Mahamati, tu e todos os Bodhisattva Mahasattvas devem evitar o raciocínio erróneo dos filósofos e procurar a auto realização da Sabedoria Nobre.”

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Capítulo XIII

O Nirvana

Mahamati disse então ao Abençoado:
“Imploramos-te que nos fales acerca do Nirvana”

O Abençoado respondeu:
“O termo, Nirvana, é usado com muitos significados diferentes, por pessoas diferentes, e essas pessoas podem ser divididas em quatro grupos:
Há as pessoas que estão sofrendo, ou que temem o sofrimento, e que pensam no Nirvana;
há os filósofos que tentam discriminar o Nirvana;
há a classe de discípulos que pensam no Nirvana em relação a eles mesmos;
e finalmente há o Nirvana dos Buddhas.
Aqueles que estão sofrendo ou que temem o sofrimento, pensam no Nirvana como uma fuga e recompensa.
Eles imaginam que o Nirvana se compõe da futura aniquilação dos sentidos e das mentes dos sentidos; eles não estão conscientes, que a mente universal e o nirvana são um, e que este mundo de vida e morte, e o Nirvana, não devem ser separados. Esses ignorantes, em vez de meditarem na não imagem do Nirvana, falam de caminhos diferentes de emancipação. Sendo ignorantes de, ou não compreendendo os ensinamentos dos Tathágatas, eles aderem à noção do Nirvana que está no exterior, o que é visto pela mente e, assim, continuam caminhando ao longo da roda da vida e da morte.
Quanto aos Nirvanas discriminadas pelos filósofos:
Na realidade não há nenhum. Alguns filósofos concebem o Nirvana para ser encontrado onde o sistema mental não mais funciona, devido à cessação dos elementos que compõem a personalidade e o seu mundo; ou é encontrado onde há total indiferença ao mundo objectivo e sua impertinência.
Alguns concebem o Nirvana como sendo um estado onde não há nenhuma lembrança do passado ou do presente, tal como quando uma lâmpada é extinta, ou quando uma semente é queimada, ou quando um fogo se extingue; porque então há cessação de todo o substrato, que é explicado pelos filósofos como o não surgimento da discriminação.
Mas isto não é o Nirvana, porque o Nirvana não se compõe de simples aniquilação e vacuidade.
Assim, alguns filósofos explicam a libertação, como se ela fosse a mera paragem da discriminação, como quando o vento deixa de soprar, ou como quando alguém pelo seu auto esforço se livra dos pontos de vista dualísticos do conhecedor e conhecido, ou se livra das noções de permanência e impertinência; ou se livra das noções de bom e mau; ou supera a paixão por meio do conhecimento, - para eles o Nirvana é libertação.
Uns, vendo "na forma" a portadora da dor, alarmados pela noção "da forma", procuram a felicidade num mundo " sem forma".
Alguns, concebem que nas considerações com a individualidade e generalidade, reconhecível em todas as coisas internas e externas, não há nenhuma destruição e que todos os seres mantêm o seu ser para sempre e, nesta eternidade, vêem o Nirvana.
Os outros vêem o eternamente das coisas, no conceito do Nirvana, como a absorção da alma finita no Atman supremo; ou vêem todas as coisas, como uma manifestação da força vital de algum Espírito Supremo onde todos regressam; e alguns, que são especialmente bobos, declaram que há duas coisas primárias, uma substância primária e uma alma primária, que reagem diferentemente, um sobre o outro, e assim produzem todas as coisas das transformações das qualidades; alguns pensam que o mundo nasce de acção e interacção e que nenhuma outra causa é necessária; os outros pensam que Ishvara é o criador livre de todas as coisas; aderindo a essas noções loucas, não há nenhum despertar, e eles consideram o Nirvana consistindo do facto de que não há nenhum despertar.
Alguns imaginam que o Nirvana é onde a auto natureza existe por seu próprio direito, sem interferência de outras auto naturezas, como as penas variegadas de um pavão, ou os vários cristais preciosos, ou a ponta de um espinho.
Alguns concebem o ser, como sendo o Nirvana, outros como, não ser, enquanto outros, concebem que todas as coisas e o Nirvana não são para ser distinguidas umas das outras. Alguns, pensando que o tempo é o criador, e que, o surgimento do mundo depende dele; eles concebem que o Nirvana consiste do reconhecimento do tempo como Nirvana. Alguns pensam que haverá Nirvana quando "as vinte e cinco" verdades forem aceites na generalidade, ou quando o rei observar as seis virtudes, e alguns beatos pensam que o Nirvana é a obtenção do paraíso.
Esses pontos de vista, alem de outros, promovidos pelos filósofos, com os seus vários ingredientes, não estão de acordo com a lógica, nem eles são aceitáveis para o sábio.
Todos eles concebem o Nirvana dualísticamente e com alguma conexão causal; por essas discriminações os filósofos imaginam o Nirvana, mas onde não há surgimento nem desaparecimento, como pode lá estar a discriminação?
Cada filósofo, confia no seu próprio manual do qual ele desenha a sua compreensão, transgredindo contra a verdade, porque a verdade não está onde ele imagina o ser. O único resultado, é que ele coloca a sua mente em perambulação e fica mais confuso, porque o Nirvana não deve ser encontrado pela procura mental, quanto mais a sua mente se torna confusa, mais ele confunde as outras pessoas.
Quanto à noção do Nirvana, mantida pelos discípulos e mestres que ainda aderem à noção de um ego próprio, e que tentam encontrá-lo, caminhando na solidão: A sua noção do Nirvana é uma eternidade de felicidade, como a felicidade dos Samádhis é para eles mesmos. Eles reconhecem que o mundo é só uma manifestação da mente e que todas as discriminações são da mente, e portanto eles renunciam às relações sociais e praticam várias disciplinas espirituais e na solidão buscam a auto realização da Sabedoria Nobre pelo auto esforço.
Eles seguem as etapas, até à sexta e alcançam a felicidade dos Samádhis, mas como eles ainda estão aderindo ao egoísmo, eles não alcançam a "inversão" no lugar mais profundo da sua própria consciência e, por isso, eles não estão livres da mente do pensamento e da acumulação da sua energia do hábito.
Aderindo à felicidade dos Samádhis, eles passam ao seu Nirvana, mas não é o Nirvana dos Tathágatas.
Eles são dos que "entraram na corrente"; mas devem voltar a este mundo de vida e morte.

Mahamati então disse ao Abençoado:
“Quando os Bodhisattvas cedem o seu capital de mérito, para a emancipação de todos os seres, eles tornam-se espiritualmente, um com toda a vida animada; eles mesmos podem ser purificados, mas noutros, ainda permanece o inesgotável mal e o carma imaturo. Imploramos-te que nos digas Abençoado, como os Bodhisattvas garantem o Nirvana? E qual é o Nirvana dos Bodhisattvas?”

O Abençoado respondeu:
“Mahamati, esta garantia não é uma garantia de números nem de lógica; não é a mente que deve ser assegurada mas o coração. A garantia do Bodhisattva vem com o processo de desenvolvimento e discernimento, que limpa o caminho seguido pelos empecilhos das paixões, que purifica os obstáculos ao conhecimento e do não eu, claramente percebido e pacientemente aceite.
Como a mente mortal deixa de discriminar, não há mais sede de vida, não mais luxúria sexual, não mais sede de aprendizagem, não mais sede da vida eterna; com o desaparecimento desta sede quádrupla, não há mais acumulação da energia do hábito; sem mais acumulação da energia do hábito, limpam-se as poluições na superfície da Mente Universal, e o Bodhisattva alcança a auto realização da Sabedoria Nobre que é a garantia do coração do Nirvana.
Há Bodhisattvas, aqui e noutras terras Buda, que são sinceramente dedicados à missão do Bodhisattva e que ainda não conseguem esquecer completamente a felicidade dos Samádhis e a paz do Nirvana – por eles mesmos.
O ensinamento do Nirvana, no qual não há nenhum substrato deixado para trás, é revelado segundo um significado oculto, por causa dos discípulos que ainda aderem aos pensamentos do Nirvana para eles, e que podem ser inspirados e exercitados eles mesmo, na missão do Bodhisattva da emancipação de todos os seres.
Os Buddhas da Transformação, ensinam uma doutrina do Nirvana, para enfrentar as condições conforme eles as vão encontrando, e dão encorajamento ao tímido e egoísta.
Para mudar os seus pensamentos e afastá-los para longe deles e estimulá-los a uma compaixão mais profunda e a um zelo mais sério pelos outros, dão-lhes a garantia quanto ao futuro pelo poder do apoio dos Buddhas da Transformação, mas não pelo Dharmata Buda.
O Dharma, que estabelece a Verdade da Sabedoria Nobre, pertence ao reino do Dharmata Buda.
Aos Bodhisattvas das sétimas e oitavas etapas, a Inteligência Transcendental é revelada pelo Dharmata Buda e o Caminho que eles devem seguir é-lhes indicado.
Na auto realização perfeita da Sabedoria Nobre que segue a inconcebível transformação da morte, do poder individualizado do Bodhisattva, ele não mais vive para ele mesmo, mas a vida que ele vive depois disso é a vida universalizada dos Tathágatas como manifestado nas suas transformações. Nesta auto realização perfeita da Sabedoria Nobre, o Bodhisattva compreende que para os Buddhas não há nenhum Nirvana.
A morte do Buda, o grande Parinirvana, não é nem destruição nem morte, senão haveria o nascimento e a continuação. Se fosse destruição, ela seria um efeito produzindo uma acção, o que não é. Nem é um desaparecimento nem um abandono, nem é uma realização, nem é uma não realização; nem é de um significado nem de nenhum significado, porque não há Nirvana para os Buddhas.

O Nirvana dos Tathágatas é onde é reconhecido que há apenas o que é visto pela própria mente;
é onde, reconhecendo a natureza da mente em si mesma, cada um não mais estima os dualismos da discriminação;
é onde não há mais desejo nem avidez;
é onde não há mais apego a coisas externas.

O Nirvana é onde a mente do pensamento com todas as suas discriminações, apegos, aversões e egoísmo são para sempre removidas;
é onde as medidas lógicas, que vistas como inertes, não mais são assenhoreadas;
é onde, até a noção da verdade é tratada com a indiferença por causa da confusão que causa;
é onde, livrar-se das quatro proposições, há discernimento na residência da Realidade.

O Nirvana é onde as paixões duplas declinam e os empecilhos duplos são limpos e o não eu é pacientemente aceite;
é onde, pela obtenção da "inversão" no lugar mais profundo da consciência, a auto realização da Sabedoria Nobre é totalmente estabelecida, que é o Nirvana dos Tathágatas.

O Nirvana é onde as etapas do Bodhisattva passam uma após outra;
é onde o poder do apoio dos Buddhas sustenta os Bodhisattvas na felicidade dos Samádhis;
é onde a compaixão pelos outros transcende todos os pensamentos do eu;
é onde a etapa Tathágata é finalmente realizada.

O Nirvana é o reino do Dharmata Buda;
é onde a manifestação da Sabedoria Nobre que é o estado Búdico se exprime no Amor Perfeito por todos;
é onde a manifestação do Amor Perfeito que é o estado Tathágata se exprime na Sabedoria Nobre da iluminação de todos - lá, é de fato, o Nirvana!

Há duas classes daqueles que não podem entrar no Nirvana dos Tathágatas: há aqueles que abandonaram os ideais do Bodhisattva, dizendo que eles não são conforme os sutras, os códigos de moralidade, nem com a emancipação.
Então há verdadeiros Bodhisattvas que, por causa dos seus votos originais, feitos por causa de todos os seres, dizem, "Enquanto que eles não alcançarem o Nirvana, eu não o alcançarei para mim," e voluntariamente mantêm-se fora do Nirvana. Mas nenhum ser será deixado de fora por vontade dos Tathágatas; um dia todos e cada um estarão sob o efeito da sabedoria e do amor dos Tathágatas da Transformação para armazenar um capital de mérito e progredir nas etapas.
Mas, se eles só entenderem isto, eles já estão no Nirvana dos Tathágatas, porque na Sabedoria Nobre, todas as coisas estão no Nirvana desde o principio."


Fim